“E quem é bombeiro uma vez, é bombeiro para toda a vida!”

Mário Teixeira, que foi durante mais de 30 anos presidente dos Bombeiros de Anadia, morreu aos 85 anos, na passada sexta-feira. Era atualmente presidente honorário da associação humanitária. Em jeito de homenagem, voltamos a publicar uma entrevista publicada no Jornal de Anadia em novembro de 2021.

 

Mário Teixeira foi presidente dos Bombeiros Voluntário de Anadia cerca de 40 anos. Tendo sido o impulsionador do primeiro quartel que os bombeiros do concelho tiveram e também do último, onde a corporação ainda se encontra. Com uma vida repleta de honras e prémios, inclusive a atribuição do crachá de ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses, Mário Teixeira foi ainda homenageado pela direção dos Bombeiros Voluntário de Anadia, depois da sua saída, como presidente honorário da corporação.

Jornal de Anadia (JA): O que é o que levou a ser bombeiro?
Mário Teixeira (MT): Ser uma pessoa interessada pelo próximo e, portanto, estar ligado a diversas atividades e resolvi um dia ir, fui convidado e aceitei.

JA: Como é que chegou a presidente dos bombeiros?
MT: Eu e o Comandante Dias Coimbra entrámos para os bombeiros, na altura havia dificuldade em arranjar bombeiros e então nós inscrevemo-nos como motoristas e depois a partir daí fui convidado para uma direção, onde o presidente era o doutor Augusto Casal de Amorim, aceitei e fiquei. E quem é bombeiro uma vez, é bombeiro para toda a vida.

JA: Foi sempre bombeiro em Anadia?
MT: Sim, estive sempre aqui. Como presidente da associação em Anadia.

JA: Quantos anos foram como presidente dos bombeiros? E de todo esse percurso, o que é que gostou mais, o que é que o cativou mais nos bombeiros?
MT: Umas décadas. Foram cerca de 40 anos. Sabe que se cria um certo entusiasmo, depois criam-se compromissos e vai-se seguindo. Quando entrei para os bombeiros, em 1970 ou 73, os bombeiros não tinham quartel. Estavam na antiga Escola Conde Ferreira, adaptada ao quartel e havia uma vontade enorme, já dos antepassados, em construir um quartel e isso entusiasmou-me. Juntamente com os colegas, porque ser presidente da associação não quer dizer que é fruto do trabalho só de uma pessoa, é fruto de uma equipa. Desde os diretores, aos bombeiros, à população que nos ajudaram muito e à Câmara que prestou também apoio. E fizemos o primeiro quartel de bombeiros.

JA: Porque foi feito o novo quartel dos bombeiros?
MT: Com o crescimento da corporação, vieram mais bombeiros. Com mais essências, mais viaturas, fomos obrigados a fazer diversas adaptações. Até que chegámos à conclusão de que o quartel, na altura inaugurado em 1983, salvo o erro, não iria servir para uma série de anos e não. Antigamente, não havia senhoras nos bombeiros. Agora, começaram a aparecer, tivemos que adaptar as camaratas para elas e oferecer condições. Entretanto, íamos aproveitando o que estava feito, mas chegou a uma determinada altura que se chegou ao limite. Tentámos fazer um quartel novo ali, até termos de abandonar o local, porque estava no meio da cidade, no centro mesmo, e era um bocado transtornador para a população com os toques das sirenes e todo aquele bulício que é próprio de conflitualidade e de acidentes graves ou incêndios. Não foi possível. Adquirimos um novo espaço. Mudámos de sítio, ainda pensámos em adquirir uns terrenos ao lado, mas já não foi possível. Contudo, a direção que esteve comigo e que esteve na transformação e remodelação do quartel, foi uma direção muito dinâmica, em que tínhamos um vice-presidente, que por força da sua profissão e dos seus conhecimentos e experiência, foi o grande dinamizador desta remodelação que lá está e em boa parte graças ao seu entusiasmo, conhecimentos e vontade, fizemos e temos ali uma obra que não envergonha ninguém. Aproveitámos o espaço que tínhamos.

JA: O que é que o marcou mais em todos os anos de presidência?
MT: Tivemos décadas de situações agradáveis e menos agradáveis. Algumas que ainda hoje recordamos com bastante mágoa e com alguma emoção. Como o incêndio em Castanheira do Vouga e Águeda, onde morreram bombeiros nossos. Morreram quatro bombeiros e ficaram feridos oito. Ficaram com marcas para toda a vida. Isso foi o momento mais terrível que eu passei nos bombeiros. Que passámos, eu e os diretores que me acompanham na altura, infelizmente, alguns já cá não estão, já fizeram a viagem final, mas foi realmente um momento triste. Momentos alegres há muitos! Naquela família dos bombeiros, há sempre momentos alegres. A inauguração do quartel, a tomada de posse de comandantes, a entrada de bombeiros novos…. Enfim, são aqueles momentos que se vivem numa corporação de bombeiros. Um dos momentos mais felizes, foi quando fomos aos Estados Unidos da América angariar uma verba para fazer o antigo quartel. Voltámos, outra vez, para angariar dinheiro para ter uma ambulância e fomos lá uma terceira vez porque nos doaram fundos para o fim que entendêssemos. Fomos também ao Luxemburgo, com um grupo de cidadãos que sempre nos apoiou, fomos a convite e com a organização do comendador Rogério Oliveira, grande amigo pessoal e grande amigo dos bombeiros. O contacto com os emigrantes foi maravilhoso, sensibilizou-me o carinho e a amizade que eles tinham por nós. E o último ponto alto foi a inauguração do atual quartel.

JA: Acha que a profissão é valorizada?
MT: É valorizada, embora às vezes as pessoas não lhe deem o verdadeiro valor. Nem a ela, nem aos bombeiros. Ultimamente, já está a ser mais realçado, porque os bombeiros estão ali, ou melhor, antigamente, estavam ali voluntariamente e não ganhavam nada e perdiam a vida. Davam a vida, eu conhecia bombeiros que morreram em Águeda. Mas, ultimamente, já está a ser mais reconhecida e enaltecida a função de bombeiro. E, agora já há bombeiros profissionais, em todos os corpos de bombeiros, já existe um misto de bombeiros profissionais juntamente com os voluntários.

JA: Recebeu alguma distinção?
MT: Os prémios que os bombeiros ganham, porque os diretores não têm prémios, são os êxitos que conseguem nas diversas situações, porque são chamados e correm bem. Mas, tive a honra de receber algumas distinções que me orgulham muito, por exemplo, a atribuição do crachá de ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses. Já tinha sido galardoado com outra medalha. Foi uma honra muito grande. E depois a homenagem que os meus colegas me quiseram fazer, eu não queria, mas foi nesta altura também.

JA: Como começou esta viagem?
MT: Quando ingressei nos bombeiros, os bombeiros estavam numa situação complicada. Tinham um quartel improvisado. Tinham algumas viaturas, poucas, muito poucas, algumas já bastante degradadas. Tínhamos poucos bombeiros. Vivia-se numa situação de dificuldade, grandes dificuldades, porque a situação não era famosa e as pessoas não podiam colaborar da maneira que era necessário, de tal modo que às vezes havia até dificuldade para adquirir combustível. Nessa altura, tivemos a preocupação de ir reformulando. Eu tive o prazer de ter como comandantes várias personalidades que colaboraram sempre connosco. Entretanto, entrou para comandante dos Bombeiros, o professor Dias Coimbra, que era subdiretor escolar de Coimbra. Entrou a convite meu e estabelecemos um programa de infusão aos bombeiros. Ou seja, dar-lhes a dignidade que entendemos que merecia. Começámos por adquirir viaturas, com grandes dificuldades, mas mantendo sempre uma situação financeira segura e de toda a maneira tinha de ser, não podíamos chegar à situação da corporação anterior. Também fomos tentando entusiasmar jovens para o grupo de bombeiros e, graças ao Comandante Dias Coimbra, foi possível aumentar a corporação de bombeiros com estudantes, que eram estudantes dele. Fizemos uma remodelação total do grupo de bombeiros, desde viaturas, comprámos viaturas pesadas para os incêndios, um autotanque, uma autoescada. Depois, mais tarde um carro para fogo urbano, que custou uns milhares de euros. Entretanto o professor Dias de Coimbra, cansou-se e saiu. Entraram outros comandantes, também muito colaborantes e continuámos a desenvolver e chegámos aquilo que já lá está.

JA: Foi difícil todo o percurso?
MT: Foi difícil porque todo o que se arranjou foi à custa de muito sacrifício. Dos conhecimentos pessoais, do sacrifício dos diretores, dos próprios bombeiros e da população. Relativamente a esta última remodelação que fizemos tivemos o apoio dos fundos comunitários, tivemos o apoio da Câmara, que sempre se mostrou colaborativa e isso também nos entusiasmava, porque graças a essas colaborações fomos adquirindo valores.

JA: Alguma vez perdeu a ligação aos bombeiros?
MT: Quando passamos a direção, que eu entendi que tinha chegado a hora de me reformar e os meus colegas que me acompanhavam, eu gostaria imenso que eles tivessem ficado, até porque eram pessoas experientes e com gosto pelos bombeiros, mas na eleição ganhou a outra lista, por meia dúzia de votos. Entretanto fiquei na situação de espetador. Nós inaugurámos as instalações em março de 2018 e saímos no final desse mês, com as contas todas em dias. Estava tudo pago, exceto umas pequenas verbas relacionadas com a imobiliária. E saímos com o sentido de dever cumprido e ter feito uma gestão o mais cuidada possível. A direção que nos seguiu entendeu dar-me o título de presidente honorário, apanharam-me de surpresa, como é natural, mas senti-me honrado por essa distinção. Eu saí, mas nunca deixei de estar ligado aos bombeiros. Quando, às vezes, a sirene toca e eu estou lá em baixo, ainda sinto assim uma coisa e depois tenho um azar muito grande! Estou aqui no alto e ouço tudo! Aproveito esta oportunidade para deixar um agradecimento a todos aqueles que colaboraram comigo, durante todos os anos em que fui presidente, quer para outros diretores, população em geral, emigrantes, autoridades. Todos mesmo!

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