O passado é um território inconstante, um chão movediço onde os factos e as memórias se entrelaçam num jogo de sombras. Julgamos conhecer a História, mas esquecemo-nos de que ela não é uma janela aberta para a verdade dos tempos idos: é antes um espelho embaciado pelas limitações da memória e pelas lacunas dos registos. Como nos lembra Julian Barnes em “O sentido do fim”, recordar não é apenas reconstituir; é, muitas vezes, reconstruir.
Os vencedores escrevem a História, diz-se, mas mesmo eles estão sujeitos ao esquecimento, à omissão conveniente, à interpretação que melhor lhes convém. A documentação que nos chega é sempre insuficiente, fragmentária, e o que falta é preenchido por suposições ou pelo engenho do historiador. Não há neutralidade absoluta na construção do passado, pois todo o relato histórico é moldado pelos olhos de quem o regista e pelo tempo em que o faz.


Se a História resulta deste cruzamento imperfeito entre os vestígios que restam e as lembranças que se desvanecem, que certeza podemos ter? Talvez nenhuma. O passado não é uma verdade imóvel, mas um enigma que o presente se esforça por decifrar: com os instrumentos de que dispõe, com as imperfeições que carrega e com as ilusões que, inevitavelmente, cria.
por Carlos Vinhal Silva

