Opinião por Carlos Vinhal Silva: Sobre a última palavra

Há épocas que se julgam definitivas. Épocas que, embaladas pelo fervor da sua própria retórica, acreditam ter alcançado o momento culminante da humanidade e que, por isso, dispensam os escrutínios do futuro. O nosso tempo, tão convicto da sua autoridade moral e intelectual, parece ser uma dessas épocas. Mas a história é um tribunal lento e silencioso e costuma ser implacável com as certezas do presente.

Nenhuma geração é juíza suficiente de si mesma. Falta-lhe distância, falta-lhe humildade, falta-lhe sobretudo a perspetiva que apenas os séculos concedem. As ideias que hoje circulam com ares de inevitabilidade, seja nos costumes, na política, na cultura ou na tecnologia, não passam de ensaios ainda por avaliar. São como obras inacabadas que já se pretendem monumentos. E é precisamente por isso que devemos resistir à tentação contemporânea de transformar cada moda intelectual numa verdade suprema.

A história tem o hábito de reduzir a pó os dogmas que ontem pareciam inabaláveis. Fá-lo não por crueldade, mas por método: separa o perdurável do efémero, o sólido do aparente. E fá-lo sempre a partir de um critério que transcende o entusiasmo das gerações. A história não se impressiona com slogans, nem com fervores pontuais, nem sequer com a unanimidade momentânea dos espíritos, a mesma unanimidade que tantas vezes nasce mais do medo do que da convicção.

O nosso século constrói ideias com a mesma rapidez com que as consome. E, contudo, insiste em tratá-las como pilares eternos. É um paradoxo curioso: quanto mais efémeras são as crenças, mais absolutas parecem ser consideradas. Essa precipitação intelectual revela, por detrás de tanta modernidade, uma profunda ansiedade de significado. Mas só o tempo, e não o tempo imediato, poderá dizer quais destas convicções sobreviverão ao desgaste dos dias.

PUBHá, neste ponto, uma ressonância política discreta, mas inevitável. Porque é frequentemente nas épocas agitadas, quando o presente se absolutiza, que surge a tentação de legislar a moral, padronizar comportamentos, remodelar tradições e impor uma visão única de virtude. Tudo em nome de um futuro que, paradoxalmente, ninguém sabe como será. É precisamente nestes momentos que se torna necessário recordar que o futuro não responde ao poder do presente: responde apenas à verdade. E a verdade raramente coincide com o frenesim de uma época. Muitas vezes, coincide com aquilo que foi ignorado, desprezado ou tratado como ultrapassado. Quantas ideias hoje julgadas obsoletas não ressurgiram, séculos depois, como fundamentos indispensáveis da civilização? Quantas certezas de ontem não se revelaram desvarios trágicos, corrigidos apenas pela paciência da posteridade?

É por isso que a última palavra não é nossa. Nem dos nossos líderes, nem dos nossos académicos, nem dos nossos moralizadores, nem sequer dos nossos críticos. A última palavra pertence ao tempo: aliado invisível da lucidez. E é talvez um sinal de sanidade reconhecer que, apesar de vivermos imersos nas convicções do momento, nenhuma delas está isenta de revisão.

A história será, como sempre foi, uma professora severa. Não se deixa impressionar pelos clamores do agora, nem pelas nossas urgências de grandeza. Ela observa, regista e julga com uma lentidão que nos irrita, mas que é a sua força. E, quando finalmente falar, poderá muito bem dizer-nos que, entre tantas ideias proclamadas como novas, apenas algumas poucas mereciam realmente esse nome.

Até lá, o mais prudente é guardar alguma reserva diante do espírito do tempo, essa entidade que gosta de se apresentar como oráculo, mas que não passa, no fim, de mais uma voz à espera de ser avaliada pelas gerações vindouras. Porque, de todas as formas de sabedoria, talvez a mais rara seja esta: saber que não somos nós que fechamos o livro da nossa época. Apenas escrevemos algumas linhas. A última palavra virá depois. É sempre assim.

 

por Carlos Vinhal Silva

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