O que faz alguém nascido na capital de Espanha, Madrid, que viveu e foi criado em Lisboa, voltar-se para a Bairrada e ver uma oportunidade de criar uma marca de vinhos e investir no território com a compra de uma vinha de 1,4 hectares? Bem, ao que parece, Pedro Martin tem a resposta e partilhou com o Jornal de Anadia de onde surgiu a inspiração para criar vinhos DOC Bairrada e a “passos largos” caminhar no sentido de uma “afirmação mais pesada” como produtor vitivinícola do local.
Aos três anos mudou-se para a zona de Alvalade e por lá ficou e se fez homem. Aqui foi sommelier profissional, a pessoa que trata da escolha de bebidas que acompanham o paladar e os gostos dos pratos servidos num restaurante. Trabalhou em várias cadeias da restauração, inclusive durante quatros anos com o chefe Ljubomir Stanisic no restaurante 100 Maneiras.
Já com o paladar afinado para a escolha de bons vinhos, Pedro Martin virou o olhar para norte e encontrou uma terra rica em argila e calcário com vinhos que, “facilmente”, ele recomendava aos melhores restaurantes. Assim, começou a ideia de criar e de fazer um negócio, que hoje tem como nome “Martin Boutique Wines”.
O arranque desta produtora e vendedora de vinhos deu-se no ano de 2017, quando Pedro Martin confecionou os primeiros lotes de vinho associado com as Cave Messias. Para isto teve de surgir um amor com a agricultura.
“Para ser bom naquilo que eu fazia, ser sommelier, eu tinha de perceber a cozinha e depois comecei a gostar da agricultura aplicada a conhecimento geográfico. A agricultura começou a ser algo que comecei a desejar, para mim foi muito fácil apaixonar-me pelo processo de raiz. Quando fazia serviço, acho que é daqui que vem um pouco do amor pela Bairrada. Para mim era mais fácil indicar os produtores da Bairrada, com preços mais acessíveis e experiências espetaculares”, explicou Pedro.


Identidade O.M – a gama de vinhos DOC da Bairrada
“A Bairrada é fora de série, só quem não conhece é que não acha que é fora de série. A Bairrada é especial por vários motivos, toda a posição geográfica permite que a região tenha vinhos com perfil específico. Estamos a falar de vinhos com frescura, independentemente dos anos, do solo, da maneira como se trabalha na barrica ou na adega, a Bairrada está um passo à frente de todas as regiões”, disse Pedro Martin enquanto se preparava para explicar o porquê de ter criado vinhos na Bairrada e qual a história dos aromas dos vinhos Identidade O.M.
Identidade O.M significa a personalidade de Oliver Martin, filho de Pedro Martin. Pela costela bairradina de Oliver, Martin decidiu produzir vinhos que se assemelham à personalidade do filho.
“Todos os lotes de identidade O.M são assentes sobre a personalidade do meu filho. No primeiro ano ele era um bebé super sorridente, assim usei fermentação malalática para criar um vinho fácil de beber, um vinho que se prova e se sorri. No segundo, terceiro e quarto ano, onde estamos agora, o meu filho conquistou a alcunha de Bin Laden, porque só faz asneirada e é um turbilhão, assim utilizei o ácido málico e não deixei o vinho barricar com a fermentação malalática do lote, de modo a ter aquele nervo do ácido no vinho, que dá aquela sensação de arrepio quando mordemos uma maçã. Esse ácido precisa de muito mais tempo, como o meu filho”, refere Martin.
Para além da entidade O.M também é feito o vinho tinto e branco O.M Bone Dry, que pretende levar até à boca do consumidor um vinho “seco até ao osso”. Este vinho tem o propósito de “aproximar pessoas” que ainda não tenham provado os aromas da Bairrada, quase como se fosse uma introdução ao mundo vinícola da região. Na gama O.M ainda se pode encontrar o clássico espumante tão característico desta terra.
Para a produção destes vinhos, Pedro Martin conta com uma vinha com 1,4 hectares onde crescem as castas Baga, Chardonnay, Arinto e Bical. Quando necessário, Pedro compra outras castas a produtores locais da Bairrada.
Em termos numerários são engarrafadas 18 mil garrafas por ano, sendo que os vinhos da Bairrada ocupam quase 50% de toda a produção da Martin Boutique Wines.
Segundo Pedro, a empresa encontra-se a passos largos de se afirmar “com outro peso” no mercado de vinhos da Bairrada.
“Vejo a região da Bairrada para além do lado romântico, mas num aspeto muito prático devido às características da argila e calcário da zona. É das melhores regiões do país para se fazer vinho”, remata o empresário com os olhos postos nos futuro do negócio.
Tiago Alexandre

