Opinião por Joaquim Ramos Pereira: Milhares de assinaturas. E depois, nada.

Ficámos a saber, na última Assembleia Municipal, que a Petição Pública que a Câmara de Anadia organizou, em Julho de 2023, contra a Linha de Alta Velocidade, nunca chegou a ser entregue a qualquer entidade, ao contrário do que a Câmara prometera; nunca seguiu para a Assembleia da República, nunca seguiu para a Agência Portuguesa do Ambiente, nunca seguiu para as Infraestruturas de Portugal, ou para qualquer titular de órgão político!

Tanto esforço em recolher as assinaturas por todo o concelho (no edifício da Câmara, no Posto de Turismo da Curia, na Biblioteca, nas Piscinas, na Rota da Bairrada, no Velódromo, no Museu do Vinho, na Comissão Vitivinícola, em todas as Juntas de Freguesia), para nada serviu; milhares de assinaturas dos cidadãos anadienses foram desperdiçadas, não lhes sendo dado qualquer uso.

Mobilizaram se cidadãos e serviços. Para quê, afinal? Não cumpriu o documento assinado qualquer objectivo próprio de uma Petição pública…

Claro que se pode perguntar: queria-se mesmo que cumprisse?…

PUBQuem tem acompanhado de perto o discurso da Câmara de Anadia sobre a Linha de Alta Velocidade reconhecerá aqui um problema mais fundo… Há muito que a Autarquia se demitiu da sua função de negociadora e defensora dos concretos interesses do concelho quanto à LAV. Não quis discutir alternativas, contrapor soluções, escolher males menores, trabalhar – no concreto – para reduzir os prejuízos de um projecto de âmbito nacional que não deixaria de avançar só porque a Câmara de Anadia batia o pé. Demitiu-se de agir para se poupar ao risco de desagradar; nada decidiu nem propôs para não ter de responder politicamente por escolha alguma…

Preferiu alimentar a postura de tudo ou nada. Como se Anadia fosse uma irredutível aldeia do Astérix e uma linha ferroviária de âmbito nacional, ao chegar aos limites do concelho, pudesse passar pelo ar ou desaparecer debaixo da terra, sem custos, sem impactos, sem escolhas difíceis para ninguém… Esse caminho nunca foi sério, e a confirmação de que a petição nunca saiu da gaveta é a expressão acabada dessa inconsistência.

Já para não falar na crónica falta de respeito pela população: pois que só se sustenta um discurso infantil, feito de palavras de ordem e protestos sem consequência, quando se presume que às pessoas basta o alarido; que não vão perguntar pelas diligências, pelas alternativas, pelos resultados. Como se os anadienses não fossem capazes de compreender escolhas difíceis e distinguir uma defesa séria do concelho de uma encenação política.

A Câmara não pode continuar a proteger a sua face, à custa da capacidade de intervenção de Anadia. Onde pára, por ex., a proposta de criação de um gabinete municipal de apoio jurídico e social aos anadienses que sejam prejudicados pela LAV? Que apoio está a Câmara Municipal a preparar para as populações? Que alterações de pormenor procurará obter?

Sendo certo que faltam poucas semanas para a adjudicação do troço Oiã-Soure, há que ir pondo os pés a caminho. Quem se demite de influenciar as decisões deixará sempre o concelho à mercê das decisões dos outros.

Joaquim Ramos Pereira – deputado municipal

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