O homem contemporâneo parece viver sob o império do instante. O novo seduz antes de ser compreendido, a mudança adquire prestígio pelo simples facto de romper com o que existia, as ideias sucedem-se com a rapidez das modas, usadas por algum tempo e abandonadas mal perdem o brilho da novidade. Nesta vertigem, a continuidade tornou-se suspeita, quase um sinal de atraso. Esquece-se, porém, que nenhuma obra humana floresce no vazio e que aquilo que hoje se anuncia como criação súbita repousa sobre uma lenta acumulação de experiências, erros corrigidos, intuições amadurecidas e esforços cujo nome o presente já não recorda. Uma comunidade que despreza o passado assemelha-se a um organismo decidido a amputar a própria memória. Poderá até conservar durante algum tempo a aparência de vigor, alimentando-se das reservas que recebeu, mas cedo descobrirá que cortou o caminho por onde lhe chegava a seiva. A tradição é esse curso subterrâneo que não consiste na repetição servil de gestos antigos nem na conservação supersticiosa de formas vazias, mas numa transmissão viva através da qual cada geração recebe uma experiência humana mais vasta do que a duração da sua própria existência.
O que merece ser preservado não é a superfície imóvel dos costumes, sujeita à erosão das circunstâncias, mas o núcleo de sentido que os tornou duradouros. Cada época tem o dever de interrogar a herança recebida, corrigir-lhe as deformações e adaptá-la às necessidades presentes. Nenhuma geração, todavia, cria a partir do nada. Mesmo a rebeldia fala uma língua herdada e até o gesto de rutura depende daquilo que pretende superar. A originalidade verdadeira nasce deste diálogo exigente com os mortos, cujas vozes continuam inscritas nas palavras, nas instituições e nas formas de compreender o mundo. Um dos equívocos mais persistentes do nosso tempo consiste em identificar a herança com a paralisia. Julga-se que reconhecer uma continuidade significa renunciar à invenção, porém, a experiência ensina precisamente que as criações mais audazes exigem fundamentos resistentes. Quem desconhece o solo que pisa confunde facilmente movimento com progresso. Por outras palavras, a árvore pode elevar os ramos e procurar nova luz porque as raízes a ligam à terra, mas quando essa ligação se perde, a liberdade do crescimento converte-se em fragilidade diante do primeiro vento. A rutura erigida em princípio permanente não liberta: condena cada geração a recomeçar na indigência.
Na esfera da cultura, esta verdade manifesta-se com especial clareza. Nenhuma grande obra surge como um relâmpago isolado num céu sem história. A literatura prolonga uma conversação secular entre vozes que se respondem, se contestam e se enriquecem. A filosofia avança retomando perguntas antigas sob novas condições. Também a arte, mesmo quando deseja escandalizar o seu tempo, trabalha sobre formas que aprendeu a reconhecer. O criador que ignora o passado arrisca-se a repetir com ingenuidade aquilo que imagina ter inventado. A tradição não diminui a liberdade criadora: concede-lhe profundidade, consciência e medida. A questão torna-se ainda mais grave no domínio político. Uma sociedade que trata os seus princípios fundadores como resíduos descartáveis enfraquece a própria estabilidade. As instituições, os costumes e as regras que atravessaram gerações encerram frequentemente uma sabedoria que não se deixa reduzir às intenções de quem os criou. Sobreviveram porque responderam, ainda que imperfeitamente, a necessidades permanentes da vida comum. Isto não as torna invioláveis: torna apenas imprudente a leviandade com que tantas vezes se pretende destruí-las antes de compreender a razão da sua duração. Reformar exige prudência, exige conhecer a matéria sobre a qual se age, prever consequências e distinguir o defeito acidental da função essencial.


As civilizações mais duradouras foram aquelas que souberam renovar-se sem perder a memória de si. Quando a fidelidade se torna cega, a tradição degenera em rigidez. Quando a inovação despreza toda a herança, dissolve-se em volatilidade. A maturidade coletiva reside na capacidade de manter entre ambas uma tensão fecunda, permitindo que o passado ilumine o futuro sem o aprisionar. O homem nasce sempre no interior de um mundo anterior à sua vontade, recebendo uma língua antes de formular qualquer pensamento, encontrando costumes, crenças e vínculos que precedem a sua escolha. Estes elementos constituem o solo a partir do qual se torna capaz de escolher. A identidade, quando vivida com inteligência, oferece consistência à abertura e impede que ela se transforme em dispersão. Talvez seja necessário recuperar a consciência de que o futuro se constrói a partir do passado, levando adiante o que nele permanece vivo. A vitalidade de uma comunidade mede-se pela arte com que transforma a herança sem a consumir. Onde a continuidade é rompida por orgulho, instala-se uma esterilidade disfarçada de novidade. Onde é cultivada com discernimento, surgem possibilidades inesperadas. A tradição revela-se então como energia latente: sustenta a invenção, dá espessura ao presente e recorda que nenhuma árvore oferece frutos duradouros quando as suas raízes deixam de alcançar a profundidade da terra.
por Carlos Vinhal Silva

