Moita diz “não” à prospeção mineira no Barro do Moleiro

A Assembleia de Freguesia da Moita, no concelho de Anadia, reuniu extraordinariamente esta segunda-feira, 23 de março, para discutir o pedido de atribuição de direitos de prospeção e pesquisa de depósitos minerais na área denominada “Barro do Moleiro”. A proposta foi rejeitada por unanimidade.

Em causa está um pedido apresentado pela empresa Simões Sá Pereira S.A., que pretende realizar trabalhos de prospeção de caulinos, areias siliciosas e outras argilas especiais numa vasta área da freguesia.

O presidente da Junta de Freguesia, Manuel Neves, explicou que o executivo tomou conhecimento do processo a 24 de fevereiro de 2026, tendo já reunido com representantes da empresa. No entanto, sublinhou que ficaram por esclarecer questões fundamentais, nomeadamente no que diz respeito à recuperação ambiental da área após a exploração.

“A Junta de Freguesia é completamente contra este projeto”, afirmou, acrescentando que uma das principais preocupações prende-se com a ausência de garantias quanto à reposição do território após eventuais intervenções.

O autarca revelou ainda que está agendada uma sessão de esclarecimento promovida pela empresa para o dia 17 de abril, na freguesia da Moita. No entanto, esta data ocorre após o término do período de consulta pública, que decorre até 13 de abril, situação que motivou críticas por parte dos eleitos, que consideram essencial que a população seja esclarecida antes de terminado o prazo legal para participação.

A Junta encontra-se ainda a trabalhar em conjunto com outras freguesias e entidades, tendo já sido solicitadas averiguações ao Tribunal Administrativo de Aveiro e um estudo de impacto ambiental junto de especialistas e organismos competentes.

Durante a sessão, a deputada do Partido Socialista, Ana Tavares, levantou várias questões relacionadas com o processo, desde a data em que as entidades locais tiveram conhecimento do projeto até às medidas previstas para minimizar impactos ambientais e garantir benefícios para a população. Defendeu ainda a necessidade de uma sessão de esclarecimento com a empresa antes do término do período de consulta pública.

Também outros membros da Assembleia demonstraram preocupação com os potenciais impactos da prospeção, nomeadamente ao nível dos recursos hídricos, qualidade do ar, ruído, tráfego pesado e consequências para a atividade vitivinícola da região da Bairrada.

Em representação do movimento Anadia Primeiro, Pedro Brito apresentou um manifesto contra o projeto, classificando-o como “um ataque direto à identidade e sustentabilidade do território”. O deputado alertou para os riscos ambientais, económicos e sociais, defendendo que a exploração mineira poderá comprometer a paisagem, a biodiversidade e a reputação da região, fortemente ligada ao enoturismo.

A sessão contou também com intervenções do público, que reforçaram o apoio à posição da Junta e da Assembleia, alertando para exemplos de outras zonas afetadas por explorações semelhantes e para a necessidade de participação ativa da população dentro dos prazos legais.

A Assembleia de Freguesia decidiu, assim, emitir um parecer desfavorável ao projeto, que será enviado à Direção-Geral de Energia e Geologia, juntamente com contributos de outras entidades.

A posição unânime reflete uma forte mobilização local contra a prospeção, com autarcas, forças políticas e população a defenderem a preservação do território e a rejeitarem um modelo de desenvolvimento que consideram prejudicial para o futuro da freguesia.

O processo encontra-se atualmente em fase de consulta pública, a decorrer até 13 de abril, período durante o qual cidadãos e entidades podem apresentar contributos sobre o pedido de prospeção. A iniciativa é analisada pela Direção-Geral de Energia e Geologia, ao abrigo da legislação em vigor para a atribuição de direitos de pesquisa de recursos minerais. A área em causa abrange cerca de 843 hectares, distribuídos maioritariamente pelas freguesias da Moita e de Avelãs de Cima, estendendo-se ainda à União de Freguesias de Arcos e Mogofores.

De acordo com a documentação submetida pela empresa, o projeto prevê uma fase inicial de prospeção com a realização de trabalhos de reconhecimento geológico, incluindo abertura de sanjas e recolha de amostras, num investimento estimado em cerca de 65 mil euros. Embora a área não se situe em zonas classificadas da rede nacional de conservação, entidades ambientais e movimentos locais têm apelado à participação pública no processo, sublinhando a importância de avaliar os potenciais impactos no território e na atividade económica da região.

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