Opinião por Carlos Vinhal Silva: Alquimismo Moral

Na longa travessia da vida, cada ser humano carrega consigo o peso das suas escolhas: erros cometidos, injustiças praticadas, palavras ditas fora de tempo ou atos negligenciados desenham uma sombra que nos acompanha. Contudo, a natureza humana, imperfeita e resiliente, é também dotada de uma capacidade singular: a redenção. Não há vida imaculada, mas há a possibilidade de um renascimento moral, um caminho em direção à bondade e à decência que pode, senão apagar, pelo menos ressignificar as faltas do passado. Os antigos filósofos viam na virtude o mais elevado ideal humano. Aristóteles ensinava que a ética não é uma teoria abstrata, mas uma prática diária, uma repetição intencional de bons atos que molda o caráter e que, se assim é, então a bondade não é uma condição inata, mas uma escolha que se renova a cada instante, pelo que cada gesto de altruísmo, cada palavra de conforto ou cada decisão de agir com justiça são pedras que pavimentam o caminho para a superação das nossas falhas.

PUBQuestionamos: o que significa, então, viver verdadeiramente com bondade e decência? Não é uma questão de aparência ou conformidade com normas externas, na medida em que a bondade genuína nasce do reconhecimento da humanidade no outro, da empatia que nos liga a quem sofre, e da recusa em perpetuar injustiças, mesmo que silenciosas. Por sua vez, a decência é o respeito por si próprio e pelos demais, uma coerência moral que nos impele a agir de acordo com princípios que sabemos justos, mesmo quando o custo é alto. Nietzsche, embora crítico dos conceitos tradicionais de moralidade, também nos ensina algo que vai encontro do que dissemos: a possibilidade de nos tornarmos autores do nosso destino ético. Não estamos condenados a sermos vítimas das nossas ações passadas, visto que temos a capacidade de reescrever o enredo da nossa vida, mas essa reescrita não pode feita de palavras vazias ou arrependimentos inúteis, requerendo um conjunto de ações concretas. Neste sentido, uma vida virtuosa não apaga as marcas dos erros, mas sobrepõe-lhes um novo significado, como um artista que transforma uma tela manchada numa obra de arte.

Viver com bondade e decência não é um caminho fácil, uma vez que exige coragem para confrontar as nossas falhas, humildade para reconhecê-las e determinação para mudar e exige, acima de tudo, uma compreensão profunda da condição humana: a consciência de que todos erramos, mas também de que todos podemos aspirar ao bem. Assim, a redenção não é uma questão de meritocracia moral, mas de autenticidade, não é necessário alcançar a perfeição, mas é essencial trilhar um caminho que demonstre o esforço genuíno para ser melhor, para fazer melhor, para viver melhor. Em última análise, a bondade e a decência têm um efeito transformador não só sobre quem as pratica, mas também sobre o mundo à sua volta, porque tal como um rio que, ao correr, purifica as margens por onde passa, uma vida vivida com virtude é um bálsamo para as feridas da sociedade. E, quem sabe, ao reconciliar-nos com o nosso próprio passado, podemos também ajudar os outros a encontrarem o seu caminho de redenção.

 

por Carlos Vinhal Silva

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