Se a vida pudesse fechar-se numa só ideia, talvez fosse esta: servir aquilo que não cabe em nós, mas nos atravessa. Não como quem se curva nem como quem se perde, mas como quem escuta uma luz e a segue, mesmo quando o mundo se desliga. Há uma ordem funda, quase muda, que pede corpo. Cresce devagar, como raiz na terra escura. E o homem, tão breve e tão incerto, torna-se no chão onde essa raiz cresce. Cumprir o dever não é obedecer: é reconhecer essa respiração antiga, esse rumor baixo que nos chama por dentro.
Há quem recue. Dizem que o dever prende, que fere a vontade, que rouba o instante. Dizem liberdade e abrem as mãos ao vento, como se bastasse cair para ser livre. Mas a liberdade não é a queda. A liberdade é permanecer. É escolher e não abandonar. Quem foge ao dever não se salva: dispersa-se. Fica à deriva de si, entregue ao brilho breve das coisas que passam e não ficam.
O dever é uma chama pequena. Não ilumina tudo, não promete descanso. Mas aquece o gesto certo, sustém a palavra justa. Ensina que nada se perde quando nasce do lugar limpo. Um gesto pode ficar a arder no mundo, como um fósforo na noite. Uma palavra pode abrir caminho no escuro. Somos pouco, mas o pouco que somos toca o muito que não somos. Como se cada vida fosse uma nota suspensa numa música maior, uma música que não se deixa ouvir inteira, mas que existe através de nós.


Não somos donos. Nunca fomos. Passamos com as mãos abertas, a guardar uma coisa frágil que nem sabemos dizer. Talvez seja o bem, talvez seja só a vontade de não ferir. Cabe-nos isso: não esmagar, não rasgar, não tomar para nós o que não nos pertence. Agir com cuidado, com um rigor suave, como quem transporta luz na palma da mão.
No fim, quase tudo se desfaz. Os nomes perdem-se, os dias dobram-se sobre si. Fica um resto, um rasto fino, como poeira iluminada. E nesse rasto está o que fomos. Não o que juntámos, não o que dissemos de nós, mas o que fizemos quando ninguém via. O que escolhemos quando era mais difícil. Aí, talvez, se diga o nosso nome inteiro. Aí, talvez, a vida encontre o seu sentido, mesmo que ninguém o pronuncie.
por Carlos Vinhal Silva

