Nenhuma peça se sustenta com um só ator. Por mais virtuoso que seja, por mais versátil que se mostre, por mais que domine a arte da multiplicidade, cedo se verá esgotado na impossibilidade de sustentar um diálogo sem interlocutor, um conflito sem antagonista, um amor sem objeto. O teatro da existência, tal como o dos palcos, exige a alteridade, pois sem o outro não há cena, não há narrativa, não há sequer sentido. E, no entanto, quantos são os que tentam representar sozinhos? Há os que vivem convencidos de que são protagonistas únicos de um enredo sem partilha, como se o mundo fosse um cenário erguido apenas para lhes servir de fundo. Exigem monólogos onde deveriam acolher respostas, ditam sentenças onde deveriam escutar argumentos, tentam ser simultaneamente heróis e vilões, vítimas e algozes, autores e críticos da sua própria história. Mas não há peça em que o mesmo ator possa ser tudo sem que o resultado se torne ridículo.
A vida exige papéis distintos. O mestre não pode ensinar se não houver discípulo, nem o amigo pode demonstrar lealdade se não houver aquele que a recebe. A política, a justiça, o amor, a própria moralidade, dependem desse jogo dialético entre sujeitos que, ao mesmo tempo, se confrontam e se moldam. No campo da ética, o dever só se sustenta se houver alguém a quem se deve algo; no domínio do poder, ninguém governa no vazio, pois a autoridade só existe em relação aos que a aceitam ou a rejeitam. Mas vivemos num tempo em que se pretende abolir essa dinâmica, como se o humano pudesse subsistir em isolamento. A modernidade cultivou a ilusão da autossuficiência: indivíduos que se imaginam completos sem comunidade, governantes que julgam reinar sem governados, sociedades que pretendem erguer-se sobre consensos artificiais que dispensam o dissenso. Nas relações interpessoais, o mesmo se verifica: exige-se amor sem entrega, respeito sem reciprocidade, reconhecimento sem mérito.


Que fique, pois, a lição: ninguém é suficiente para si mesmo. A política, a moral, a arte, a convivência humana: tudo depende desse jogo de papéis em que uns dão, outros recebem, uns ensinam, outros aprendem, uns comandam, outros seguem. A tirania não nasce apenas do desejo de poder, mas da recusa de reconhecer que o poder só se exerce em relação a alguém. E a maior solidão não é a falta de companhia, mas a recusa de admitir que o mundo não é um monólogo, mas um diálogo constante e inevitável.
por Carlos Vinhal Silva
