Há algo de fundamental na condição humana que nos impele a assumir o peso da nossa própria existência. Ser responsável por si mesmo não é apenas uma necessidade prática, mas um imperativo ético que define a essência do que significa ser verdadeiramente humano. Esta responsabilidade, longe de ser uma carga imposta, é a chave para a nossa liberdade, na medida em que constitui o fundamento sobre o qual erguemos a nossa dignidade. Explicamos melhor: na vastidão da existência, cada ser indivíduo é, acima de tudo, um soberano do seu próprio ser. Como um marinheiro que enfrenta as correntes imprevisíveis do mar, o homem deve dirigir a sua vida com consciência e determinação e fugir a esta tarefa seria abdicar da sua humanidade, reduzindo-se ao estado de um autómato guiado por forças alheias, incapaz de escolher e incapaz de crescer.
De facto, os antigos filósofos ensinaram-nos que a autonomia é o princípio da virtude. Sócrates, por exemplo, ao recusar abandonar os princípios pelos quais vivia, mesmo perante a morte, demonstrou que o verdadeiro valor de um homem reside na sua capacidade de ser fiel à sua consciência. Esta fidelidade implica mais do que simples cumprimento das suas necessidades: exige o discernimento do que é justo, do que é belo, do que é bom. E este discernimento só pode nascer de uma reflexão profunda sobre o que somos e sobre o que devemos ser. Por sua vez, Aristóteles argumentava que a excelência humana reside na prática das virtudes e que, entre estas, talvez a mais fundamental fosse a prudência, entendida como a capacidade de governar a própria vida com sabedoria. Este governo não é imposto de fora: nasce de dentro, emerge de um espírito que se interroga constantemente sobre o caminho a seguir. A responsa
bilidade é, assim, um exercício de autoexame, uma procura incessante pela harmonia entre o que somos e o que desejamos ser.


por Carlos Vinhal Silva

