A Adega Malápio, localizada em Aguada de Baixo, no concelho de Águeda, está a afirmar-se como um projeto singular na região da Bairrada, ao recuperar com rigor e autenticidade a ancestral tradição de vinificar em talhas de barro centenárias. Numa época em que os vinhos naturais e de mínima intervenção ganham cada vez mais expressão, este projeto familiar destaca-se por unir património cultural, práticas agrícolas antigas e inovação enoturística, devolvendo protagonismo a um método que remonta aos tempos romanos e medievais.
Liderada por Romeu Martins, a Adega Malápio nasce da vontade de honrar a memória do avô, Aristides, que produzia vinho de talha num conjunto de ânforas de barro revestidas apenas com cera de abelha e resina de pinheiro. Décadas mais tarde, Romeu recuperou não só o espaço e as talhas originais, mas também a filosofia agrícola e vinícola que lhes dava vida, apostando numa abordagem artesanal, natural e de mínima intervenção.
As uvas utilizadas provêm sobretudo de vinhas velhíssimas, incluindo uma vinha medieval de alta densidade, um verdadeiro “puzzle de castas da Bairrada”, onde se encontram variedades históricas como Bical, Baga, Cercial, Bastardo, Rabo de Ovelha, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Maria Gomes, Trincadeira e Bicalinho. Sem recurso a herbicidas e com um manejo feito “cepa a cepa”, Romeu Martins trabalha a vinha com a precisão e o cuidado de quem cuida de um património vivo.
O Vinho de Talha produzido na Adega Malápio é a expressão mais pura desse legado. Seguindo o método tradicional do “Vinho de Talha/Pote”, as uvas fermentam e estagiam em grandes ânforas de barro, em contacto com películas e massas, num processo de curtimenta que pode ser mais ou menos prolongado. O resultado são vinhos naturais, com reduzido uso de sulfitos, dotados de estrutura, cor e complexidade singulares — vinhos que procuram refletir o terroir da Bairrada tal como era interpretado há séculos.
Além da produção vinícola, a Adega Malápio desenvolveu um conjunto de experiências de enoturismo que pretendem ligar visitantes à história da região, à natureza envolvente e às práticas ancestrais que moldam o projeto. As visitas incluem a descoberta da adega centenária e da vinha medieval atravessada por um curso de água, bem como explicações detalhadas sobre o processo de vinificação em talhas. A localização, próxima da Pateira de Fermentelos e da bacia do rio Cértima, permite ainda apreciar paisagens amplas, onde despontam o Caramulo e o Bussaco.


O projeto aposta igualmente na sustentabilidade, na acessibilidade — estando a adequação para pessoas com mobilidade reduzida em expansão — e na integração de tecnologia, nomeadamente através da aplicação youwine, que permite comprar o vinho na adega e recebê-lo em casa, com cálculos automáticos de transporte e desalfandegamento para qualquer parte do mundo.
Romeu Martins destaca que a Adega Malápio pretende preservar a tradição, mas também reinterpretá-la, promovendo o vinho português e o património cultural da Bairrada. Com práticas agrícolas regenerativas, vinhos de identidade marcada e experiências que cruzam vinho, cultura, gastronomia e natureza, o produtor acredita que cada copo de Vinho de Talha Malápio “conta uma história escrita entre gerações”, celebrando vida, memória e território.

