Opinião por Carlos Vinhal Silva: A lonjura da Dona Esmeralda

A Dona Esmeralda gostava da palavra lonjura. Tinha-a encontrado num texto meu e depois falou-me dela, como se uma palavra pudesse ser encontrada igual a uma moeda antiga no fundo de uma gaveta. Disse que eu usava expressões de outros tempos, do tempo dela, e que gostava disso. Eu achei graça. Uma Senhora com mais de noventa anos a descobrir velhice nas palavras de um rapaz. Mas talvez a língua tenha estas confusões felizes por não saber a idade de que quem usa a palavra, que anda de boca em boca sem reparar nos anos.

Costumava levar-lhe algumas das coisas que escrevia. Dizia que gostava de me ler. Às vezes, telefonava-me depois e eu percebia que lera verdadeiramente, que estivera onde eu tinha estado quando escrevi. Lembro-me de que gostou muito de um poema chamado “O segredo do rio”. Escrevi nele que todo o rio conhece a foz para onde corre, que talvez continue por saber alguma coisa que nós ignoramos. A Dona Esmeralda não me disse se acreditava no segredo. Eu também não sei se acredito. Mas sei que pensamos estas coisas para não ficarmos tão pequenos diante do que não entendemos. Uma vez perguntou-me por que escrevia eu coisas tão bonitas e tão tristes. Após alguns segundos de silêncio respondi, com a voz algo embargada, que para mim escrever só tinha sentido se fosse uma maneira de falar com quem já não estava. Não sabia ainda o trabalho que aquela frase me daria.

Conhecia a Dona Esmeralda desde menino. O meu Avô era muito amigo do marido dela. Depois os dois morreram e ficámos nós. Gosto de pensar nas coisas assim: ficámos nós. Como se uma amizade pudesse deixar descendência. Como se duas pessoas começassem uma conversa e outras, muitos anos depois, tivessem o dever feliz de não a deixar acabar.

Visitava-a algumas vezes. A Dona Esmeralda era uma Senhora. Tenho receio de que a palavra já não explique o suficiente. Era uma Senhora porque havia delicadeza no seu modo de dizer, de escutar, de se mover, de olhar, de dar. Nunca se saía de junto dela de mãos completamente vazias. Havia sempre qualquer coisa dela que encontrava maneira de nos pertencer. Às vezes, penso que as pessoas do seu tempo sabiam que dar era uma forma de pedir que voltássemos.

Ela chamava-me Vinhalzinho. O meu Avô era Vinhal de apelido e eu também sou. Dizem que sou parecido com ele e ela sabia melhor do que muitos porque o conhecera. Olhava para mim e dizia “Vinhalzinho” e, dentro deste diminutivo, cabia uma coisa demasiado grande. Eu ficava orgulhoso e assustado. O meu Avô foi um grande homem e não é fácil receber como elogio a semelhança com alguém de quem temos medo de não merecer sequer a sombra. Mas na voz dela, eu acreditava. Nunca lhe disse isto: eu acreditava no que poderia ser quando ela o dizia. Há coisas que só sabemos dizer quando já não podem servir para resposta. Da última vez que estive com a Dona Esmeralda, deu-me uma conversa. Uma memória. Um pouco daquele mundo que existira antes de mim e onde o meu Avô podia entrar por uma porta sem ser recordação.

Agora penso na palavra lonjura. Talvez eu estivesse errado quando a escrevi da primeira vez. Lonjura não há de ser apenas o muito longe. Há pessoas que ficam a uma distância impossível e, todavia, continuam suficientemente perto para nos chamarem pelo nome. Ou por aquele nome que só elas sabiam dizer. A Dona Esmeralda tinha essa maneira de deixar alguma coisa nos outros. Fazia-o quando nos punha qualquer coisa nas mãos, quando escutava, quando dizia uma palavra com a delicadeza certa. Algumas pessoas passam pelo mundo assim, repartindo-se sem darem por isso, e depois continuam no que deram. O mundo deve muito a essas pessoas. À Dona Esmeralda deve também. Porque há lonjuras que afastam: a dela há de continuar a aproximar.

 

por Carlos Vinhal Silva

SUBSCREVA JÁ

NEWSLETTER

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Aceito Ler mais