Opinião pela CDU Anadia: Será que Portugal é merecedor dos fundos comunitários?

A febre das autoestradas iniciou-se com a chegada de Cavaco Silva ao poder (final de 1985) o que coincidiu com o início da entrada em Portugal dos fundos milionários da União Europeia.

Se em 1984 havia em Portugal cerca de 160km de autoestrada, hoje temos mais de 2.500km que rasgam o país de norte a sul e de este a oeste, o que constitui, sensivelmente, o dobro da rede média da União Europeia.

A febre foi tão grande que, a título de exemplo, de Gaia para Sul, além das A1 e A28 paralelas se construiu ainda uma terceira (A32) que, tendo aberto ao tráfego em 2011, e com um custo aproximado de 380 milhões de euros tem, como era de esperar, um movimento muito abaixo do necessário para ser rentável.

Portugal é o quarto país a nível europeu com mais quilómetros de autoestradas, e sobe para segundo lugar se essa comparação tiver em conta o número de habitantes de cada país.

Já no que à ferrovia nacional diz respeito, Portugal está no antepenúltimo lugar na Europa em contra ciclo com a maioria dos países europeus que têm mais quilómetros de ferrovia por milhão de habitantes do que de autoestradas.

O desmantelamento da ferrovia foi constante a partir de 1990. E se em 1952 Portugal contava com 3,597 km de ferrovia, hoje o número é sensivelmente o mesmo. Entre 1990 e 2008 a quota de mercado do transporte ferroviário caiu 66%. Entre as causas para a perda de passageiros em Portugal está o encerramento excessivo de linhas complementares, que alimentavam as linhas principais, a falta de investimento no setor ferroviário e o investimento excessivo na construção de estradas e autoestradas.

Entretanto, a União Europeia considerou 2021 como o “Ano da Ferrovia”, numa tentativa de implementar a transferência modal dos transportes altamente poluentes, como o carro e o avião, para a ferrovia amiga do ambiente.

E lá vamos nós aproveitar (mal) a maré… e construir uma Linha de Alta Velocidade que unirá Lisboa ao Porto num percurso que, alegadamente, reduzirá “significativamente” o tempo de ligação entre essas duas cidades.

PUBO custo/benefício para os Portugueses em geral não é equacionado quando se trata de “aproveitar fundos comunitários”. As vantagens para o país real não nos são explicadas.

Em vez de se implementar a ferrovia como forma de unir populações do interior com as do litoral, de implementar a utilização de um transporte menos poluente que nos levaria (e aos nossos produtos) além-fronteiras, vamos, tal como se fez com as autoestradas, construir linhas paralelas que servem sempre os mesmos.

Mas não é só a nível nacional que os fundos comunitários são mal utilizados. Mesmo na nossa autarquia, a frase “é para aproveitar os fundos comunitários” serve de justificativo para obras, na nossa opinião, de interesse duvidoso, como é exemplo a transformação do edifício da velha escola secundária (que não servia para aulas, nem merecia ser intervencionado, como justificativo para a construção de uma novo oneroso e inestético edifício noutro local da cidade) numa residência universitária para alunos que ficarão a mais de 1 hora de tempo/distância das universidades que essa residência alegadamente serve (Aveiro e Coimbra)

Como já dizia Salazar “Manda quem pode, obedece quem deve”.

Só que, entretanto, aprendemos a questionar e sabemos que temos o direito e o dever de o fazer. E acima de tudo, temos o direito e o dever de exigir que nos expliquem e nos ouçam em tomadas de decisão que implicam a utilização de dinheiros que também são nossos. E consultas à população não devem ser feitas apenas quando precisamos que se coloquem ao nosso lado.

É bom que os políticos aprendam que, se hoje recusamos ouvir quem nos “afronta” com críticas e sugestões alternativas e exige explicações, amanhã seremos nós a sentir que ninguém nos ouve nem liga. Por muito alto que estejamos na nossa “torre de marfim” há sempre uma torre mais alta mesmo ali ao lado.

 

Fátima Flores, militante do PEV, eleita na Assembleia de Freguesia da União das Freguesias de Arcos e Mogofores

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