Ao homem, criatura singular na ordem dos seres, foi conferido um fardo que nem os deuses ousariam carregar: a consciência do ato. Com efeito, cada movimento, cada palavra, cada intenção manifesta ou secreta arrasta consigo uma cadeia de consequências que se estende para além da nossa compreensão imediata. Tornámo-nos, assim, ferreiros e vítimas das próprias ações que forjamos, cativos de uma responsabilidade que, no fundo, é desmedida e, por isso mesmo, insustentável.
Há, pois, em cada gesto, uma gravidade que não nos é dado ignorar sem dano. Mesmo o ato mais simples (um olhar que se desvia, uma palavra que se cala, uma mão que se retrai) produz alterações subtis, mas reais, no tecido do mundo. A cada instante decidimos, mesmo que inadvertidamente, o curso da existência não apenas nossa, mas de outrem. Este encadeamento inexorável, esta teia de efeitos imprevistos, constitui a mais dura condenação da liberdade humana: a de nunca poder atuar sem transformar o real de forma irrevogável.
Os antigos, que melhor que nós conheciam a tragédia desta condição, intuíram que a virtude não reside tanto na grandiosidade dos atos, mas na consciência humilde da sua inevitável ambiguidade. Fazer o bem, ou pretender fazê-lo, não absolve ninguém da responsabilidade pelas consequências indesejadas que, tantas vezes, brotam do próprio zelo. Assim, Santo Agostinho advertia que até o amor mais puro carrega consigo o risco da posse; que a caridade mais desinteressada pode alimentar a vaidade. E Kant, ao elevar a intenção à condição suprema da moralidade, reconhecia implicitamente que o desenlace prático do agir escapa sempre, em parte, ao arbítrio da vontade.
A responsabilidade absoluta, que recai sobre cada ato, não é algo que se possa contabilizar, medir ou repartir. É um peso metafísico, semelhante ao da existência mesma. Não há inocência possível, nem exílio para onde o homem possa fugir da condição de ser responsável por aquilo que faz e, por um paradoxo cruel, também por aquilo que se abstém de fazer.


Por isso, a sabedoria não consiste em procurar a segurança absoluta do agir correto, ilusão que apenas engendra fanatismo e desespero, mas antes em reconhecer a precariedade fundamental de cada decisão e, mesmo assim, continuar. Ter a coragem de agir sabendo que jamais seremos capazes de suportar todas as repercussões dos nossos atos: eis a grandeza e o martírio do espírito humano.
Vemos assim que cada gesto, cada palavra, cada silêncio, carrega uma seriedade que transcende o seu instante. Cada escolha é como uma pedra lançada num lago: as ondas que dela emanam atingem margens que nunca veremos. E, no entanto, não há em tal constatação redenção ou consolo. O homem, condenado a agir sem jamais poder medir o alcance do seu ato, caminha por entre ruínas que ele próprio ergueu: sem mapa, sem garantia, sem testemunho.
A vida, assim entendida, não é uma obra a ser construída, mas antes um encadeamento de danos inevitáveis, de acasos que, juntos, compõem uma narrativa tão incoerente quanto irrecusável. Não nos cabe celebrar o impulso de seguir em frente, nem lamentar a impossibilidade de fazer o bem sem manchar as mãos. Tudo quanto podemos, e talvez tudo quanto nos é lícito, é habitar com lucidez o drama silencioso de existir.
por Carlos Vinhal Silva

