Entre os muitos enganos que os homens cultivam sobre si próprios, há um que merece particular atenção: o de confundir incapacidade com falta de vontade. O senso comum repete que o homem não faz porque não pode, mas mais justo seria dizer que não faz porque não quer. O poder, no sentido da possibilidade de agir, é frequente. A vontade, por sua vez, é rara. Mas convém começar por distinguir os dois conceitos. O desejar é um movimento natural, espontâneo, quase mecânico. Todo o ser vivo deseja, porque todo o ser vivo tende para aquilo que lhe parece um bem. O querer, porém, não se reduz a esta tendência instintiva. É antes uma escolha racional, que ordena os desejos e os submete a uma hierarquia. É por isso que o querer exige disciplina, deliberação e firmeza. Não basta sonhar ou aspirar: é preciso decidir e perseverar.
Ora, se aceitarmos esta distinção, compreendemos logo a razão da decadência política do nosso tempo. O mundo moderno está cheio de desejos, mas vazio de vontade. Deseja-se a justiça, mas não se quer a ordem que a sustenta. Deseja-se a prosperidade, mas não se quer o esforço do trabalho. Deseja-se a liberdade, mas não se quer a responsabilidade que dela decorre. Assim, o desejo multiplica promessas, enquanto a ausência de querer as converte em frustração. Os antigos, pelo contrário, sabiam que a vida humana se mede pela capacidade de querer. Não ergueram cidades e impérios porque dispunham de meios técnicos superiores, mas porque cultivaram uma vontade firme e orientada para fins claros. O querer é o que transforma a possibilidade em ato. É nele que reside a passagem do que apenas poderia ser para o que efetivamente é.


Concluímos: não é a ausência de meios que explica a fraqueza do nosso tempo, mas a ausência de querer. Os meios estão ao alcance, o que falta é a decisão de usá-los. Quem quer, pode quase sempre. Mas quem não quer, ainda que rodeado de possibilidades, permanecerá impotente. E é neste hiato entre o desejo fácil e o querer raro que se joga o destino das nações.
por Carlos Vinhal Silva

