ERSAR aponta progressos no setor, mas Anadia enfrenta perdas elevadas de água e baixa recolha seletiva
A Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) divulgou, a 27 de fevereiro, o Volume I do Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal 2025 (RASARP 2025), documento que traça o retrato económico e operacional dos serviços de abastecimento de água, saneamento de águas residuais e gestão de resíduos urbanos em Portugal continental, com dados reportados a 2024.
O relatório evidencia progressos na acessibilidade e na adesão aos serviços, bem como na fiabilidade da informação recolhida pelas entidades gestoras. Contudo, mantém alertas estruturais ao nível das perdas de água, da reduzida reabilitação de infraestruturas, da fraca circularidade nos resíduos e da insuficiente cobertura de gastos em muitas entidades.
No concelho de Anadia, onde os três serviços são assegurados em regime de gestão direta pela Câmara Municipal, os indicadores revelam uma realidade com pontos fortes, mas também fragilidades significativas.
Abastecimento de água: cobertura elevada, mas perdas muito expressivas
No abastecimento de água, Anadia apresenta uma acessibilidade física de 99%, classificada como “boa”, e uma água segura em 99,81% das análises efetuadas. A cobertura de gastos atinge os 114%, o que indica que o serviço, no plano financeiro, consegue recuperar os custos operacionais.
O concelho serve 12.110 alojamentos, numa área predominantemente rural, através de uma rede com 439 quilómetros, 33 reservatórios e 15 captações subterrâneas.
No entanto, os indicadores de eficiência hídrica suscitam preocupação. A água não faturada atinge 59,8%, valor muito elevado, refletindo-se em perdas reais de 232 litros por ramal por dia. Em termos absolutos, o sistema tratou cerca de 3,9 milhões de metros cúbicos de água, mas o consumo faturado medido foi de aproximadamente 1,5 milhões de metros cúbicos.
A reabilitação de condutas situa-se nos 2,2% ao ano, acima da média nacional referida pela ERSAR (0,5%), mas os níveis de perdas indicam a necessidade de intervenção estrutural mais profunda. O índice de valor da infraestrutura é de 0,34, sugerindo envelhecimento relevante da rede.
O relatório nacional sublinha que, em 2024, Portugal perdeu 187,3 milhões de metros cúbicos de água (o equivalente a 8,7 piscinas olímpicas por hora) reforçando a urgência de ganhos de eficiência.
Saneamento: adesão abaixo dos 70% e ausência de reabilitação de coletores
No saneamento de águas residuais, a acessibilidade física à rede fixa é de 100%, mas a adesão ao serviço por rede fixa é de 61,8%, o que significa que uma parte considerável dos alojamentos não está ligada ao sistema público.
O concelho dispõe de 459,8 quilómetros de coletores, 56 estações elevatórias e sete estações de tratamento de águas residuais (ETAR), tratando anualmente cerca de 2,45 milhões de metros cúbicos de águas residuais.
Contudo, a reabilitação de coletores foi nula (0% ao ano), num contexto em que o relatório nacional aponta para uma média de apenas 0,1% ao ano, muito aquém dos 1,5% considerados necessários. O índice de segurança e resiliência é de 9, valor reduzido, e apenas 29% das descargas se encontram licenciadas.
A cobertura de gastos no saneamento situa-se nos 84%, abaixo do equilíbrio financeiro, o que confirma uma das tendências identificadas pela ERSAR: dificuldades na recuperação integral dos custos, sobretudo em sistemas de gestão direta e de menor dimensão.
Resíduos urbanos: taxa de recolha seletiva de 19% e cobertura financeira insuficiente
Na gestão de resíduos urbanos, Anadia integra o sistema em alta da ERSUC – Resíduos Sólidos do Centro, S.A., mantendo a recolha em baixa sob responsabilidade municipal.
O concelho apresenta uma taxa de recolha seletiva de 19%, abaixo das metas nacionais e europeias. Em 2024, foram encaminhadas para reciclagem 627 toneladas, num volume total de atividade de 9.983 toneladas por ano. A recolha seletiva de biorresíduos é ainda residual (13 toneladas/ano).
A acessibilidade ao serviço de deposição seletiva de multimaterial é de 35% e de biorresíduos de 27%, valores que refletem margem significativa de progressão. O índice de circularidade é de 39.
Do ponto de vista económico, a cobertura de gastos é de 72%, o que significa que o serviço não recupera integralmente os custos. A ERSAR destaca, no plano nacional, que muitas entidades em gestão direta enfrentam constrangimentos tarifários, com receitas insuficientes face às exigências crescentes do setor.
Encargos para o utilizador
Em Anadia, o encargo mensal para um consumo de 10 m³ é de:
Abastecimento de água: 9,41 euros
Saneamento: 8,98 euros
Resíduos urbanos: 8,42 euros
Encargo total: 36,39 euros
Os indicadores de acessibilidade económica situam-se entre 0,24% e 0,27%, valores considerados comportáveis no contexto nacional.
Entre estabilidade estrutural e desafios futuros
O RASARP 2025 conclui que o setor, a nível nacional, permanece estruturalmente estável, mas fragmentado, com 352 entidades gestoras, muitas delas de pequena dimensão. A melhoria da medição de caudais, do conhecimento das infraestruturas e da qualidade da informação é apontada como um avanço relevante.
No caso de Anadia, os dados revelam uma realidade dual: boa cobertura física e qualidade da água assegurada, mas perdas muito elevadas, adesão insuficiente ao saneamento e fraca circularidade nos resíduos, num território classificado como de escassez hídrica elevada ou severa.
O desafio, à semelhança do que sucede no panorama nacional, passa por acelerar a reabilitação de infraestruturas, melhorar a eficiência hídrica, reforçar a recolha seletiva e assegurar sustentabilidade económico-financeira dos serviços — condições determinantes para garantir resiliência ambiental e qualidade de vida à população.