Opinião por Carlos Vinhal Silva: O Jogo do “Se”

E se tudo tivesse sido diferente? Se um outro caminho tivesse sido tomado, se uma decisão, por mais ínfima que parecesse, houvesse sido outra? Eis o jogo do “se”, esse passatempo tão caro aos homens e tão inútil quanto viciante. Porque nada há de mais tentador do que reescrever a história com a tinta do arrependimento ou da especulação. Na política, esse jogo assume proporções monumentais. Os povos, os governantes, os intelectuais, todos se deixam embalar pela ilusão de que um único desvio teria alterado os destinos da nação. Se aquele líder não tivesse sido eleito, se aquela revolução não tivesse acontecido, se a crise não tivesse vindo, se os ventos da História houvessem soprado noutra direção. O “se” torna-se a grande válvula de escape da responsabilidade, um artifício para adiar o juízo e recusar o real.

Vejamos a situação que atravessamos: um país cansado, um povo resignado, um Estado que cresce como um monstro insaciável, alimentando-se da força daqueles que trabalham, para redistribuir em nome de uma justiça sempre prometida e nunca cumprida. “Se tivéssemos escolhido outro modelo económico, seríamos hoje mais prósperos”, dizem uns. “Se tivéssemos abraçado ideais mais progressistas, seríamos mais modernos”, clamam outros. “Se tivéssemos preservado os valores de outrora, não estaríamos em decadência”, lamentam os nostálgicos. Mas todas essas suposições são meros exercícios de escapismo: o país não se constrói com hipóteses, mas com decisões concretas.

O grande problema do jogo do “se” é que ele conduz, invariavelmente, à inação. Se tudo depende de um acaso perdido no passado, então nada no presente pode ser realmente mudado. É essa a cilada do pensamento utópico, seja ele de esquerda ou de direita. Os primeiros dizem: “Se o sistema fosse diferente, não haveria pobreza, não haveria desigualdade.” Os segundos respondem: “Se tivéssemos mantido os princípios dos nossos antepassados, seríamos um país mais forte, mais respeitado.” No fundo, ambos caem na mesma armadilha: a de acreditar que os problemas da sociedade resultam de uma contingência histórica errada e não da natureza humana, eterna e imutável. Mas será que não há responsabilidade nos atores da política? Será que os males que hoje enfrentamos são apenas obra do destino, de circunstâncias inevitáveis? De forma alguma. O erro, mais do que nos acasos históricos, está na tendência humana para delegar o seu destino a outros, para confiar que haverá sempre um “eles” que resolverão os problemas que são, na verdade, “nossos”.

O jogo do “se” é, portanto, a grande trincheira dos conformistas. Serve para eximir os indivíduos da sua parte na construção da sociedade. Porque enquanto nos perguntamos “e se?” esquecemo-nos de perguntar “e agora?”. O país não muda com suposições, mas com ação. E essa ação não parte dos palácios do poder, mas das escolhas diárias de cada cidadão: da recusa da mediocridade, do combate à corrupção enraizada na cultura, da exigência de mérito e não de favores, da defesa intransigente da liberdade face ao domínio esmagador do Estado. Porque, no fim, o maior erro de todos é acreditar que o destino de um povo se decide num momento único e irrepetível. A História não se faz de “ses”: faz-se de vontades. E só quem compreende isso pode verdadeiramente fazer a diferença.

 

por Carlos Vinhal Silva

SUBSCREVA JÁ

NEWSLETTER

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Aceito Ler mais