

Desde os primeiros dias de estudo, ensina-se o jovem a pensar, mas sempre segundo um método, uma ordem, uma ortodoxia. As regras da lógica são-lhe oferecidas não como instrumentos, mas como grilhões. A gramática do raciocínio é-lhe imposta não como possibilidade, mas como fronteira. Há fórmulas aceites para discutir a justiça, há parâmetros estabelecidos para interrogar a verdade, há moldes prontos para a crítica do poder. O pensador que desvia um milímetro destes cânones arrisca-se à acusação de heresia intelectual.
Mas quem ditou essas regras? Quem decidiu os caminhos pelos quais o pensamento pode ou não vaguear? O que chamamos de “razão” ou “bom senso” não são, por vezes, senão hábitos petrificados que já perderam a sua força interrogativa. E quem se atreve a questioná-los é logo advertido: há fronteiras que não se cruzam, há perguntas que não se fazem, há ideias que não se dizem. A liberdade de pensar existe, dizem-nos, mas dentro do que é aceitável.


A história mostra-nos que os grandes pensadores foram, antes de mais, desobedientes. Sócrates bebeu a cicuta porque não respeitou as regras do pensamento oficial. Espinosa foi expulso da sua comunidade porque se recusou a aceitar dogmas. Nietzsche foi ignorado porque ousou escrever sem a reverência devida à tradição. Todos aqueles que abriram caminhos na filosofia, na ciência, na política, foram vistos como subversivos, porque pensaram sem licença.
Se há uma regra que o pensamento deve cumprir, é a de desconfiar das regras. O intelecto não é servo da conveniência, nem o espírito deve dobrar-se à autoridade da rotina. Pensar é, por essência, um ato de desobediência. E se o preço da liberdade intelectual for a marginalização, o ridículo ou até a condenação, então que assim seja: porque é melhor ser um errante no deserto do que um erudito acorrentado à mesa do conformismo.
por Carlos Vinhal Silva

