Opinião por Carlos Vinhal Silva: O tempo não para, mas isso não é um problema

Há algo de extraordinário em conceber o futuro como um território vasto e promissor que se estende para além da nossa própria presença. Este pensamento contém, em si, uma espécie de felicidade serena, uma tranquilidade que não depende das limitações do tempo nem das inquietações da vida pessoal. Porque, em última instância, saber que o mundo continuará a desdobrar-se em todas as suas cores, mesmo quando já não estivermos aqui para o ver, é uma forma de paz: uma paz que repousa na confiança silenciosa no ritmo intemporal da vida.

A verdade é que vivemos num tempo em que a existência parece medir-se pela intensidade da presença: pelos vestígios que deixamos e pelas marcas que imprimimos no agora. Toda a nossa cultura parece orientar-se pela urgência de um legado ou pela ânsia de uma permanência qualquer que nos garanta um eco para além dos dias que temos.

PUBNo entanto, existe uma outra perspetiva, mais subtil, mas talvez também mais profunda, que nos relembra que o valor da vida não reside apenas na nossa presença, mas na própria continuidade da existência. Assim, aceitar que o futuro existirá independentemente de nós é o reconhecimento humildade de que algo não começa nem termina connosco, convidando-nos a libertar-nos do peso de uma existência autocentrada e a compreender a felicidade numa dimensão mais ampla que se realize no bem dos outros e no mundo que continuará a florescer com novos rostos e novas histórias, muito depois de nos despedirmos.

Pensar assim é, de certa forma, reconciliar-se com o mistério da vida; é abraçar a ideia de que o sentido da existência não se encerra na nossa experiência imediata, mas que se estende como uma linha invisível na qual cada um de nós é apenas uma pequena parte de uma história imensa ainda por contar. Saber que as estações voltarão, que as cidades continuarão a iluminar-se à noite, que o som do riso e nascer do sol permanecerão: tudo isso confere um sentido ao que fazemos hoje, mesmo que o seu impacto já não nos alcance.

Essa felicidade discreta, derivada de um futuro independentemente de nós, não é uma desistência nem afastamento: é um profundo ato de amor pelo que há de vir; é aceitar que o presente em que estamos inseridos é passageiro; é aceitar que o verdadeiro legado de cada vida não está no que acumulámos, mas que talvez esteja fundamentalmente no papel que desempenhámos na construção do amanhã.

 

por Carlos Vinhal Silva

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