Opinião por Carlos Vinhal Silva: Um silêncio que deveria envergonhar

Há silêncios que são neutros, outros que são prudentes. Mas há um tipo de silêncio que é imperdoável: aquele que nasce da inveja, do medo e da pequenez. É o silêncio institucional, calculado e frio, que recusa reconhecer o mérito porque o mérito incomoda. E, em certas terras, esse silêncio tornou-se uma forma de governo.

Vivemos num país onde o talento é suspeito e o sucesso, quando não controlado, é tratado como afronta. As estruturas locais (Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, outros organismos culturais) parecem ter sido concebidas não para promover o melhor que nelas floresce, mas para o neutralizar. É o instinto da mediocridade que se defende. E fá-lo não com ataques frontais, mas com algo mais vil: a omissão. A omissão é o escudo do covarde, a arma preferida dos que não têm coragem para reconhecer que há quem faça mais, melhor e sem pedir autorização.

Não é o esquecimento que fere: é a indiferença consciente. Quando um município ignora as conquistas dos seus cidadãos mais notáveis, não é o acaso que fala: é a escolha deliberada de não permitir que o brilho de alguém ofusque a sombra dos instalados. Os louros são reservados para os que bajulam, para os que se integram na teia das conveniências, para os que se curvam. A cultura torna-se refém da cortesia hipócrita e o mérito passou a constituir uma ameaça à estabilidade do costume.

Nada é mais triste do que ver a mediocridade com poder. Porque a mediocridade, quando ocupa cargos, não apenas falha: persegue. Persegue o talento, ostraciza a inteligência, silencia a criatividade. E fá-lo com a serenidade de quem julga estar a preservar a ordem, quando na verdade está a condenar a sua própria comunidade à irrelevância.

O jornalismo local, tantas vezes cúmplice, muitas vezes já não cumpre a sua missão de dar voz à verdade. Preferem-se as genealogias às conquistas, as fotos familiares às obras públicas, o elogio endogâmico à imparcialidade. É uma imprensa de espelho que reflete apenas os rostos dos que nela se revêm. E, assim, aquilo que devia ser a consciência crítica da comunidade torna-se a sua caricatura.

Mas não há progresso possível onde o mérito é silenciado. Uma cidade que não celebra os seus melhores é uma cidade em ruína moral. As praças podem ser remodeladas, as ruas alcatroadas, as fachadas pintadas, mas nada disso compensa a miséria espiritual de uma sociedade que não sabe reconhecer o valor. É no aplauso ao justo que se mede a nobreza de um povo e é na sua ausência que se revela a sua decadência.

Os que hoje se calam perante o mérito alheio serão, amanhã, esquecidos com a mesma facilidade com que hoje ignoram. Porque a memória do poder é curta, mas a da injustiça é longa. E o tempo, essa força serena e incorruptível, acabará por repor a ordem das coisas. O nome do que cria sobrevive. O nome do que ignora, apaga-se.

O silêncio, quando é cúmplice da injustiça, deixa de ser silêncio: é vergonha. E essa vergonha, um dia, recairá sobre os que poderiam ter elevado o nome da sua terra e escolheram, por despeito ou por cobardia, mantê-lo pequeno. A grandeza de uma comunidade mede-se pela coragem de reconhecer os seus. Quando essa coragem falta, resta apenas o ruído dos que fingem governar e o eco surdo de uma terra que, podendo ser muito, insiste em ser pouco.

 

por Carlos Vinhal Silva

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