Opinião por Fátima Flores: A arrogância do poder

A propósito (ou a despropósito) do ainda não sanado problema da água que chega às nossas torneiras e da atitude pública e privada de alguns políticos de Anadia, lembrei-me da minha professora de Cultura Clássica que um dia nos falou da “hybris” (o tal sentimento de arrogância ébria dos poderosos para com os que consideram mais débeis) que matou Ícaro.

Quando um político se senta na cadeira do poder, tem duas opções:

  • Assume aquele lugar como seu, a que acedeu por ser o melhor, aceita uma corte de aduladores acéfalos que se aproximam para usufruir de benefícios e benesses, ou apenas por medo de serem afastados, e trata os outros que eventualmente se lhe opõem ou contestam as suas decisões como intrusos que o incomodam ou inimigos que o querem derrubar;
  • Aceita que acedeu temporariamente àquele lugar porque outros confiaram nele e ouve os que o criticam, tal como os que o apoiam, com a mesma atenção e respeito. Aceita que exerce o seu cargo em nome não só de todos os que lhe deram voz mas também dos que pensam diferente, e a todos deve responder, justificando atitudes e opções.

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A atitude do poder autárquico instalado na nossa terra, seja nas (inexistentes) explicações sobre as opções assumidas, como é o caso da intervenção no Monte Crasto, da construção da unidade de produção e distribuição de betão e betuminosos na Zona Industrial de Avelãs de Caminho ou da mais recente decisão de adaptação de parte do edifício do antigo colégio nacional (dizer que é para aceder a fundos comunitários não me parece suficiente), seja em assuntos mais prementes como é o estado da água para consumo humano, revela a arrogância de quem, isolado no alto da sua torre de marfim, perdeu a capacidade ou não sente necessidade de olhar para os que, cá em baixo, esperam deles mais e melhor.

A atitude nas assembleias municipais, onde chegam a ridicularizar quem intervém (numa tentativa de os calar), com o agendamento de inúmeros pontos para análise ou aquiescência de discursos laudatórios mas vazios de propostas para exercer pressão sobre a atribuição dos tempos para análise de cada ponto, a recusa em disponibilizar a gravação das sessões desse órgão para além do período de transmissão, a utilização da rede social Facebook para dar informações, apagando todos os comentários (sem os restringir à partida) revelam exatamente esse distanciamento antidemocrático e mesmo alguma animosidade contra quem os questiona ou contesta.

Uma atitude de auscultação democrática é frequentemente substituída por uma de deliberação autocrática.

No imediato, pode facilitar a vida de quem decide, mas, a longo prazo, atrai muito mais contestação e descontentamento por parte de quem tem que acatar as decisões.

Esquecem-se de que, um dia, tal como Ícaro, as suas asas de cera vão derreter, e os apoiantes irão virar-se para outro lado que lhes convenha mais. Talvez antes de mergulharem no abismo, consigam refletir sobre o que os levou a pensar que “voavam” mais alto que todos os outros que os rodeiam e perceber que lá no fundo somos todos iguais.

Maria de Fátima Flores, militante do PEV, eleita na Assembleia de Freguesia da União das Freguesias de Arcos e Mogofores.

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