25 de Abril na Mealhada com apelo à responsabilidade coletiva e defesa ativa da liberdade

O concelho da Mealhada viveu o ponto alto das comemorações do 25 de Abril com um conjunto de cerimónias protocolares que incluíram a parada das corporações de bombeiros do concelho e da Filarmónica de Luso, o hastear das bandeiras, largada de pombos e a deposição de uma coroa de flores no monumento aos mortos em combate do concelho. A sessão solene da Assembleia Municipal ficou marcada por uma reflexão transversal sobre o significado atual da Revolução dos Cravos.

O presidente da Assembleia Municipal, Carlos Cabral, no decorrer desta sessão evocativa do Dia da Liberdade, na tenda colocada para o efeito no jardim Municipal, promoveu uma reflexão crítica sobre o percurso democrático, questionando o contributo individual e coletivo para a concretização dos valores de Abril. “Criticamos que nem tudo está feito nestes 52 anos, nem tudo está bem, mas devemos interrogar-nos: o que fizemos para fazer cumprir os valores do 25 de abril?”, questionou.

Depois de ouvir atentamente os vários discursos das forças políticas com representação no órgão que preside, Carlos Cabral, apontou os efeitos “terríveis” do 25 de Abril na Mealhada, lembrando a comissão administrativa da Câmara no pós-25 de Abril “tinha a seu cargo uma única máquina: um cilindro de pedra puxado por uma junta de bois. Isto simboliza o que nos deixou o regime que nos atormentou durante 48 anos”.

As diferentes forças políticas representadas no órgão apresentaram leituras distintas, mas com pontos de contacto relevantes, uma delas a necessidade de preservar os valores de Abril, a consciência de fragilidades sociais persistentes e o reconhecimento de que a liberdade exige concretização diária.

Francisco Lopes, do CHEGA, alertou para o risco de esvaziamento simbólico da data, defendendo que “celebrar o 25 de abril não pode ser feito de frases feitas” e questionando se o país honra verdadeiramente o seu espírito. O deputado sublinhou que, mais de cinco décadas depois, muitos portugueses continuam a sentir limitações concretas na segurança, na saúde e nas condições económicas, optando por abordar o 25 de novembro, defendendo que “foi com aquela data que o 25 de Abril se tornou verdadeiramente liberdade”.

Já Paulo Silva, do PSD, centrou a sua intervenção na responsabilidade intergeracional, afirmando que “celebrar o 25 de Abril não é apenas recordar o passado, é acima de tudo assumir responsabilidades no presente e olhar com seriedade para o futuro”. Destacou vulnerabilidades sociais como os baixos salários, a precariedade jovem e fragilidades no apoio aos idosos, alertando que “a democracia não está garantida para sempre, precisa de atenção e de participação”.

PUBNuno Canilho, em representação do PS, destacou os 50 anos da Constituição como um dos maiores legados de Abril, sublinhando o seu caráter inovador e estruturante. “A constituição foi revolucionária face às constituições europeias”, afirmando que este documento continua a ser motivo de orgulho coletivo.

“Podia ser uma constituição como tantas outras, um documento ou apenas regras de um jogo, mas não(…)”, traduzindo num “projeto constitucional, que criou as bases de um tempo novo. E conseguiu”, disse.

Por sua vez, João Louzado, do Movimento Independente Mais e Melhor — atualmente maioritário nos órgãos autárquicos — enfatizou a génese do projeto político local como expressão direta da liberdade conquistada. “O Movimento Mais e Melhor nasceu num ato puro de cidadania, porque foi possível pela liberdade que hoje celebramos. E com um propósito claro: responder aos problemas concretos do concelho e melhorar a vida das pessoas”, disse, apontando que “é um espaço de pluralidade onde a diversidade não é apenas tolerada, é valorizada”.

Num registo abrangente e mobilizador, António Jorge Franco, presidente da Câmara da Mealhada optou por uma intervenção centrada na liberdade enquanto prática quotidiana e compromisso coletivo. “O 25 de Abril é um compromisso”, afirmou, sublinhando que “a liberdade não é um dado adquirido, é um exercício diário”.

Num discurso com forte carga cívica e contemporânea, o autarca alertou para os riscos de retrocesso democrático. “Num tempo em que assistimos um pouco por todo o Mundo a discursos de exclusão, ódio, intolerância e de divisão, devemos estar atentos. O retrocesso não chega de um dia para o outro, instala-se lentamente, quando normalizamos o preconceito, quando aceitamos a intolerância, quando deixamos de defender os outros.”

Para o autarca, “numa sociedade verdadeiramente livre o normal não é uniformizado. É a diversidade, é a coexistência de diferentes formas de pensar, de viver, de amar de acreditar. O normal é cada pessoa poder escolher o seu caminho político, religioso, afetivo, sexual, sem ser descriminado ou marginalizado por isso”.

As comemorações do 25 de Abril na Mealhada começaram no passado dia 12 com a exposição “Música de Protesto – Contextos, vozes e significados”, patente até ao dia 30 na sala de exposições do Cineteatro Messias, com vários momentos culturais associados.

A programação continua este sábado com o concerto Cantar Abril, a cargo do Coral Magister, no Cineteatro Messias, às 21h00, assim como o concerto do fadista Camané, domingo às 17h00, também no Cineteatro Messias.

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