“A construção de canis não é a solução para o abandono”

A propósito da comemoração do Dia Mundial do Animal (a 04 de outubro) fizemos um balanço sobre o trabalho do Centro de Recolha Oficial de Animais de Companhia de Anadia. Falámos com Lino Pintado, vereador da Câmara Municipal de Anadia com o pelouro do Ambiente, que nos faz um ponto de situação.

 

Jornal de Anadia (JA) – Mais de dois anos volvidos após a abertura de um espaço como o CROAC, que balanço fazem?

Lino Pintado (LP) – O investimento concretizado pelo Município de Anadia com a construção do CROAC surgiu como resposta a uma necessidade decorrente do elevado número de animais errantes que proliferam em espaço público. O balanço não pode deixar de ser positivo porquanto o CROAC veio, sem dúvida, mitigar este flagelo que é comum a todos os municípios, e dotar-nos de condições que até aqui não dispúnhamos e também para o apoio à vasta atividade que decorre das atribuições e competências do Gabinete Veterinário Municipal. Sem este equipamento tudo seria mais difícil.

 

JA – Quantos animais foram acolhidos e adotados neste tempo?

LP – Foram já recolhidos cerca de 400 animais pelos serviços municipais, tendo sido realizadas 180 adoções. Neste momento temos 137 animais nas instalações do CROAC. O diferencial justifica-se com acolhimentos temporários, por aparecerem os donos, acidentes, etc…  É justo realçar o importante e decisivo apoio dos Bombeiros Voluntários de Anadia nesta matéria, essencialmente na recolha de animais abandonados e acidentados.

 

JA – O canil já sofreu obras de ampliação. Este aumento de capacidade foi suficiente?

LP – Para já é o possível e nunca será suficiente, se entendermos que a resposta só passa por aí. Há um trabalho profundo e estrutural que, apesar de esbarrar em dificuldades essencialmente sociológicas, de comportamentos e vícios enraizados, temos vindo a encetar, e que passa também pela pedagogia, efetivada com a sensibilização para o adequado comportamento dos donos de animais de companhia.

 

JA – Como se desmistifica a ideia de que num canil os animais são eutanasiados sem razão aparente?

LP – Com a verdade. Não são. Pelo menos no nosso caso. É uma prática apenas admissível por indicação médica. Basta ver a frequente lotação (esgotada) do CROAC, que muitas vezes nos impede de recolhermos animais e nos obriga a pedir auxílio a associações de bem-estar animal que, pelas mesmas razões, nem sempre podem responder afirmativamente.

 

JA – Sentem um aumento ou diminuição do abandono animal nos últimos anos?

LP – Infelizmente, no período pós-pandemia e até agora, tem-se verificado um aumento do abandono de animais.

 

JA – A construção de canis é a solução para o abandono?

LP – Não é a solução para o abandono. A solução passa pela consciencialização e mudança de mentalidades, que tanto preconizamos, mas é um instrumento essencial na resposta ao grave problema que resulta do abandono.

JA – Quais são as prioridades do executivo da Câmara Municipal para garantir o bem-estar animal?

LP – O bem-estar animal não pode deixar de estar associado, em primeiro lugar, ao controlo da sua população em ordem a podermos reduzir o número de animais errantes. Nesse sentido, o Município de Anadia, para além das esterilizações realizadas nos animais resgatados das ruas e encaminhados para adoção, tem investido fortemente em campanhas de esterilização para os animais de companhia através de protocolos com clínicas veterinárias do concelho, custeando as intervenções por estas realizadas aos animais dos nossos munícipes. Depois priorizamos claramente o encaminhamento para adoção, uma adoção responsável que não veja o animal de companhia como algo descartável à primeira contrariedade. Nesta matéria, é justo assinalarmos a importante colaboração que temos de famílias de acolhimento temporário e de associações de bem-estar animal, onde se destacam a 4 Patas e Focinhos e a Vira Lata, Vira Amor. Finalmente, a pedagogia já referida atrás, lembrando que esta temática foi mesmo já incluída no programa municipal de educação ambiental (Médicos do Planeta), implementado nas escolas do concelho do 1.º ciclo do Ensino Básico, com o tema “Animais de companhia e saúde ambiental”.

 

JA – A população está mais sensibilizada para a adoção ao invés da compra?

LP – Acredito e espero que sim, considerando o quão fácil hoje é adotar um animal de companhia, dado o número elevado à disposição e a divulgação que fazemos nesse sentido.

 

JA – Alguma mensagem que gostariam de deixar à população?

LP – Aproveito esta oportunidade para reforçar a importância do nosso comportamento enquanto membros de uma comunidade. Devemos erradicar comportamentos que incentivem a proliferação de animais de rua, incluindo mesmo a sua alimentação em espaço público.

Os donos de animais devem proceder ao registo dos mesmos, bem como proceder à sua esterilização, aproveitando, por exemplo, as campanhas municipais que temos realizado.

Quem estiver interessado em ter um animal de companhia, deve recorrer à adoção. Para esse efeito, podem visitar o CROAC de Anadia, dentro do horário previsto. É também possível entrar em contacto com o CROAC de Anadia através do número de telefone 231 510 730 (ext. 620) e da página de Facebook.

Finalmente, a mensagem mais importante, não abandonem os seus animais. Para além de ser uma crueldade para o animal abandonado, agravam um problema comum a todos nós. Um problema que é também de higiene e segurança pública.

 

JA – No Centro de Recolha encontramos animais para adoção. Quais os horários para visita e adoção? Que critérios por parte dos interessados?

LP – O horário para adoção é à segunda-feira, das 14h às 17h; à quarta-feira e sábado, das 10h às 13h. Caso os interessados não tenham disponibilidade nestes horários poderão entrar em contacto com o CROAC de Anadia para agilizarmos um novo horário.

Os interessados devem indicar que animal pretendem, lembrando que o mesmo pode viver vários anos (média 10-15 anos). De referir que o animal é entregue com identificação, esterilizado, vacinado e desparasitado.

Devem ainda considerar diversos fatores dos quais serão informados no momento da adoção, como, por exemplo, os cuidados básicos, o problema das férias e as possibilidades disponíveis quando não possam levar os animais ou deixar com alguém, e a necessidade de serem acompanhados por um médico veterinário pelo menos uma vez por ano para vacinação e desparasitação, sendo que a vacinação antirrábica é um serviço prestado pelo nosso Gabinete Veterinário Municipal.

 

JA – Que outras valências encontramos no CROAC ou no Gabinete Veterinário Municipal?

LP – O CROAC de Anadia é também a instalação de apoio ao Gabinete Veterinário Municipal que, por sua vez, tem como principal função apoiar a população no que concerne à informação, encaminhamento e resolução de problemas em diversos âmbitos tais como:

  1. execução de medidas de profilaxia médica e sanitária preconizadas na legislação em vigor;
  2. notificação das doenças de declaração obrigatória e adoção de medidas de profilaxia determinadas pela autoridade sanitária veterinária nacional, sempre que sejam detetados casos de doenças de caráter epizoótico;
  3. cumprimento de protocolos profiláticos (aconselhamento, vacinações e desparasitações);
  4. intervenção na população de animais errantes (campanhas de esterilização, no sentido de controlar a sua população, garantindo a sua infertilidade e a não proliferação de ninhadas);
  5. adoção de animais e promoção do não abandono (sensibilização e consciencialização, em particular nas juntas de freguesias e escolas);
  6. atendimento ao público e aconselhamento em matérias diversas (legislação, maus tratos, insalubridade, sanidade animal e saúde pública);
  7. realização de campanhas de vacinação antirrábica e identificação eletrónica nos períodos definidos em edital oficial;
  8. inspeção sanitária e controlo sanitário das instalações para alojamento de animais, bem como dos produtos de origem animal e dos estabelecimentos comerciais ou industriais onde se abatam, preparem, produzam, transformem, fabriquem, conservem ou comercializem animais ou produtos de origem animal e seus derivados.
  9. coordenação de campanhas de esterilização de animais de companhia.
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