Do Alto de Vale da Mó: Efemérides do mês por Nelson Henriques Cerveira

Na foto – 1ª página de 440 do Código Administrativo publicado por Cipriano Simões Alegre

Recordar Figuras de Anadia

CIPRIANO SIMÕES ALEGRE

Falar de Cipriano Simões Alegre é falar de um dos Homens mais notáveis de Anadia.

Cipriano Alegre, que foi um republicano convicto, descendia de uma família modesta mas honrada e nasceu em Arcos – Anadia, no dia 6 de novembro de 1885, vindo a falecer em Anadia a 24 de março de 1938.

Levado, quando ainda criança, para o Brasil, manteve-se neste país até à idade de 16 anos, perdendo ali a família com quem vivia, entre a qual sua mãe e uma irmã. Passando as mais duras privações, exerceu naquele país lugares muito humildes. Lutando contra a adversidade, Cipriano Alegre viu-se obrigado a regressar à pátria.

Veio então para Anadia, onde passou a residir na companhia de sua avó, tias e irmã, continuando a sua vida a ser um rosário de dificuldades. Só mais tarde conseguiu emprego como ajudante do então escrivão de direito Luiz Teixeira Pereira de Figueiredo, pai do Sr. Mário Teixeira. No entanto, o que ganhava era insignificante e só à custa de grandes economias conseguiu proteger a família. Cipriano Alegre, inteligente como era, nutria especial predileção pela leitura, dedicando-se desde muito cedo ao estudo da legislação administrativa. Como era muito pobre, socorria-se dos amigos, que lhe emprestavam livros e foi então que o sr. Virgílio de Freitas Abreu, escrivão de direito, lhe pôs a sua biblioteca à disposição, tomando-o ao mesmo tempo como empregado no seu escritório.

Só com a instrução primária, as qualidades de inteligência de honradez e de trabalho patenteadas por Cipriano Alegre conduziram-no ao cargo de escrivão de direito, interino, durante cerca de três anos. Foi ainda ajudante do contador judicial, Dr. Adriano Monteiro Cancela, e exerceu também na mesma altura, o lugar de solicitador.

Entrou nas lutas políticas em 1907, colocando-se ao lado dos propagandistas da República. A sua atividade foi grande, o que lhe motivou viva hostilidade dos adversários. Pode dizer-se que foi ele o introdutor das artes gráficas em Anadia, tendo fundado em 1911, o jornal «Bairrada Livre», semanário que terminou em fins de dezembro de 1917, sendo mais tarde brilhante colaborador de outro jornal anadiense «A Ideia Livre».

Foi neste período correspondente de vários jornais da província e de Lisboa, tornando-se bastante conhecidas algumas das campanhas que sustentou.

Cipriano Alegre tinha a sua tipografia na Rua Júlio Maia em Anadia.

Quando a morte o surpreendeu, roubando-o ao convívio dos amigos e dos filhos, já essa tipografia era uma indústria lançada, de alicerces firmes. Seu filho, Avelino Alegre, foi o digno continuador da obra do pai, trabalhando infatigavelmente para lhe honrar o nome.

Em dezembro de 1915, Cipriano Alegre foi nomeado, pela morte de José de Freitas Tavares, chefe interino da secretaria da Câmara Municipal de Anadia, passando a efetivo em 1916, era então presidente do Município o sr. Joaquim Rodrigues Miranda proprietário das extintas Caves Lucien Beiscker. O sr. Joaquim Miranda, reconhecendo em Cipriano Alegre extraordinárias qualidades de trabalho, pediu-lhe que fosse ao Brasil em representação das suas caves, deixando no seu lugar, como interino o sr. Armando de Magalhães. Quando regressou, porém, não ocupou o lugar que lhe pertencia. Veio a ser reintegrado mais tarde nesse cargo, com inteira reparação de direitos adquiridos.

Em 1937, Cipriano Alegre publicou o Código Administrativo, que valorizou grandemente com um repertório alfabético da sua autoria. Seguidamente abalançou-se à publicação do «Código Administrativo anotado», trabalho que teve várias edições. Este notável trabalho, feito por um homem que apenas tinha a instrução primária, revelou toda a sua capacidade de conhecimento no campo de direito administrativo, bem patente nas citações que então lhe fizeram vários trabalhistas, nomeadamente o professor Marcelo Caetano.

Foi sócio fundador em 1907 do Centro Recreativo Popular, coletividade que ainda hoje existe formando com o Anadia Futebol Clube a coletividade mais representativa do concelho – AFC/CRP.

Vários anos manteve uma colónia de férias em Vale da Mó, para onde mandava os seus operários, a expensas suas. Pela amizade que sempre lhes dedicou, aqueles souberam, como prova de reconhecimento, prestar-lhe uma justa homenagem, por altura das «bodas de prata» da sua tipografia – 1º de maio de 1936 – descerrando-lhe o retrato numa das paredes da oficina.

Escrito jornalístico de Eduardo Agostinho em «Jornal de Notícias – Página da Bairrada – 21/06/1967»

JUSTINO SAMPAIO ALEGRE

Foi um comerciante e industrial dos mais considerados, do seu tempo, em toda a Bairrada. Nasceu em Anadia no dia 18 de novembro de 1853, tendo falecido a 2 de março de 1938, no seu palacete da mesma vila, com 84 anos.

Justino Sampaio Alegre era casado com D. Ermelinda Brandão Alegre, natural de Bolfiar – Águeda. Era pai de D. Alice e Augusto Brandão Alegre e avô de D. Maria Joana, Manuel, Justino e Augusto Brandão Alegre

Justino Sampaio Alegre fundou em Anadia as Caves Monte Crasto.

Esta região, seriamente atacada pela terrível «filoxera» viu a sua principal riqueza – o vinho – seriamente comprometida. Impunha-se remediar esse mal, substituindo as cepas inutilizadas e renovar as restantes por forma a conseguir-se uma recompensa dos prejuízos sofridos. Era preciso enfrentar o grave problema com decisão. Justino Sampaio Alegre não hesitou, e, movido pelo seu temperamento ousado, procurou o meio mais eficiente de resolver o intrincado caso, deslocando-se a França com o fim de estudar os mais modernos processos de cura para a moléstia, numa demonstração eloquente do seu apaixonado interesse pelos problemas da Bairrada. Regressando entusiasmado com tudo o que tinha visto e aprendido, de tal forma começou a trabalhar que conseguiu salvar, em grande parte, os vinhedos bairradinos e, ao mesmo tempo, entusiasmar os seus amigos e também devotos defensores desta região: conselheiro José Luciano de Castro, dr. José Paulo Monteiro Cancela, padre António Alves Mariz e eng. agrónomo Tavares da Silva, a dedicarem-se ao repovoamento das vinhas desbastadas com castas seletas.

Incansável pioneiro da indústria do espumante em Portugal, soube trabalhar para que ela se elevasse além fronteiras com a obtenção das mais altas distinções nas exposições internacionais em que apresentou os seus produtos, nomeadamente na Exposição Universal de Paris em 1900, onde os mesmos foram premiados com Medalha de Ouro, competindo com as mais famosas caves de França.

Em 5 de setembro de 1965 foi erguido um monumento à memória do ilustre anadiense, nos jardins das Caves, iniciativa justa, que teve a colaboração de todos os agentes e funcionários da referida firma, ficando para sempre a perpetuar o nome de um homem de rasgada visão que levou à Bairrada um importante e eterno cartaz de propaganda.

«Escrito do jornalista Eduardo Agostinho no Jornal de Notícias – Página da Bairrada de 15/03/1967»

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