Opinião por por Carlos Vinhal Silva: Do bobo solitário à multidão de oráculos

Em tempos idos, cada aldeia tinha o seu bobo. Era um ofício honrado na sua singularidade: cabia-lhe entreter, dizer disparates e, por vezes, revelar verdades incómodas sob a capa da loucura. Não se lhe exigia prudência, nem conhecimento, nem gravidade. Bastava-lhe ser o que era: um só.

Mas os tempos mudaram. E, como em todas as épocas de progresso, a democracia veio democratizar também a loucura. Já não há um bobo por aldeia: há uma multidão deles, e cada qual se julga um sábio. Já não se distinguem pelo guizo no chapéu, mas pelo brilho ofuscante da sua confiança inabalável. Não há praça nem taberna onde não ergam a voz, onde não distribuam sentenças com a solenidade de quem acaba de descer do monte onde recebeu a verdade absoluta.

E que belas verdades! Tão infalíveis quanto mutáveis, tão rigorosas quanto vazias. Em cada esquina, um iluminado que desdenha a dúvida e repele a hesitação. Já não se conversa, decreta-se. Já não se reflete, proclama-se. E aqueles que ousam interrogar são imediatamente reduzidos ao silêncio, pois a nova era não tolera incertezas.

PUBMas há algo de sublime nisto. Afinal, que privilégio viver numa época onde ninguém ignora nada, onde tudo é entendido sem esforço, onde cada voz é um eco da infalibilidade! Que desperdício terão sido os séculos em que o conhecimento exigia estudo, prudência e modéstia. Agora, basta falar: e eis a verdade feita som.

Assim, celebramos o triunfo do espírito humano, que já não se curva perante o mistério, mas o dissolve em certezas instantâneas. Se os antigos sofriam com a ignorância, era apenas porque não tinham ainda inventado a infalibilidade da opinião. E se Platão lamentava que os filósofos não governassem, era porque não vivera para ver este tempo esplêndido, em que os bobos já não são um por aldeia: são legião.

 

– por Carlos Vinhal Silva

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