Em tempos idos, cada aldeia tinha o seu bobo. Era um ofício honrado na sua singularidade: cabia-lhe entreter, dizer disparates e, por vezes, revelar verdades incómodas sob a capa da loucura. Não se lhe exigia prudência, nem conhecimento, nem gravidade. Bastava-lhe ser o que era: um só.
Mas os tempos mudaram. E, como em todas as épocas de progresso, a democracia veio democratizar também a loucura. Já não há um bobo por aldeia: há uma multidão deles, e cada qual se julga um sábio. Já não se distinguem pelo guizo no chapéu, mas pelo brilho ofuscante da sua confiança inabalável. Não há praça nem taberna onde não ergam a voz, onde não distribuam sentenças com a solenidade de quem acaba de descer do monte onde recebeu a verdade absoluta.
E que belas verdades! Tão infalíveis quanto mutáveis, tão rigorosas quanto vazias. Em cada esquina, um iluminado que desdenha a dúvida e repele a hesitação. Já não se conversa, decreta-se. Já não se reflete, proclama-se. E aqueles que ousam interrogar são imediatamente reduzidos ao silêncio, pois a nova era não tolera incertezas.


Assim, celebramos o triunfo do espírito humano, que já não se curva perante o mistério, mas o dissolve em certezas instantâneas. Se os antigos sofriam com a ignorância, era apenas porque não tinham ainda inventado a infalibilidade da opinião. E se Platão lamentava que os filósofos não governassem, era porque não vivera para ver este tempo esplêndido, em que os bobos já não são um por aldeia: são legião.
– por Carlos Vinhal Silva
