As pequenas dissensões do quotidiano pertencem à própria matéria da vida comum. Onde há convivência humana, seja no seio da família, no espaço social ou no exercício profissional, haverá sempre algum atrito: uma palavra menos prudente, um gesto recebido de modo diverso daquela intenção com que foi dado, uma indiferença real ou apenas suposta ou aparente. Tomados isoladamente, tais episódios parecem de pouco monta. No entanto, quando ficam sozinhos, entregues ao abandono e à indiferença, sem esclarecimento nem justa medida, ganham uma força e uma forma que não tinham inicialmente. O mal, muitas vezes, não nasce tanto do acontecimento, mas daquilo que fazemos depois dele e o silêncio, frequentemente confundido com prudência, pode tornar-se no catalisador da desordem.
É compreensível que, perante tensões que consideramos menores, nos inclinemos a calar. Haverá, seguramente, uma intenção honesta nessa contenção, seja evitar que uma faísca se converta em incêndio, seja o desejo legítimo de não querer alimentar disputas que consideramos indignas de grande atenção. Existem, contudo, silêncios que, ao invés de pacificar, se limitam a encerrar, dentro nós, aquilo que deveria ter encontrado palavras. Assim se vão depositando no espírito um conjunto de sedimentos morais à medida que aumentam os ressentimentos omitidos, as mágoas inomináveis e os desconfortos que remetemos para a penumbra. Esses sedimentos, inicialmente invisíveis, vão ganhando peso e densidade, mas mais grave ainda é que vão adquirindo veneno, pelo que um desacordo simples pode um dia irromper com uma violência desmedida, como se a causa presente fosse apenas o sinal visível de uma longa fermentação interior.


Importa, pois, criar lugares morais de conversa, isto é, espaços em que o incómodo possa ser dito sem humilhação, a mágoa exposta sem ameaça, a incompreensão formulada sem medo de represálias. A convivência apenas amadurece e evolui quando os seus membros aprendem a discernir autenticamente a acusação da explicação, a cólera da franqueza, o orgulho da dignidade. Só assim é que o diálogo deixa de ser um mero instrumento de reparação e se torna exercício de virtude, porque exige escuta, temperança e coragem. Falar, nestes casos, não é vencer o outro num festival de retórica ou elevação do tom de voz: falar é impedir que ambos sejam vencidos pelo que ficou por dizer.
Quando o silêncio impera durante demasiado tempo, a imaginação começa a legislar onde deveria haver entendimento. A mente, privada de esclarecimento, fabrica intenções ocultas, atribui má-fé, exagera gestos, corrói mentiras. As pequenas feridas emocionais, ignoradas por conveniência ou medo, acabam por gangrenar a perceção que temos dos outros e aquilo que poderia ter sido sanado através de um penso que é a palavra justa dita no momento certo, torna-se, pouco a pouco, em distância, frieza e rutura, acabando em amputação. O diálogo, ainda que seja difícil (porque é), continua a ser o único caminho capaz de impedir que os pequenos conflitos se ergam como muralhas entre pessoas que poderiam ter ficado próximas. O silêncio pode parecer resguardo contra a chuva, mas quando nele se acumulam mágoas sem cuidado, é já o vento inicial do furacão.
por Carlos Vinhal Silva

