Médico-veterinário João Cruz: “Gostar de animais é fundamental, mas só isso não chega”

Médico veterinário na Curivet, na Curia, João Cruz encara a profissão com um sentido de missão: cuidar dos animais é também ajudar as pessoas e a comunidade. Entre consultas, cirurgias e responsabilidades de gestão, vive um quotidiano marcado tanto pela satisfação das recuperações como pelo peso das decisões difíceis.

O gosto pelos animais foi o primeiro motivo que levou João Cruz a escolher Medicina Veterinária. Mas a decisão assentou também no interesse pela medicina, pelo raciocínio clínico e pela possibilidade de contribuir para o bem-estar da comunidade.

“Muitas vezes nós temos de pensar, temos de raciocinar”, explica. Ao desafio de procurar respostas para os problemas de saúde dos animais junta-se a vontade de ajudar quem os acompanha. Para o médico veterinário da Curivet, contribuir para que os animais sejam mais saudáveis e felizes é também uma forma de tornar a comunidade melhor.

Além da atividade clínica, João Cruz assume funções de direção clínica e de gestão da empresa. O seu dia reparte-se, por isso, entre o acompanhamento dos pacientes e as tarefas necessárias ao funcionamento das diferentes áreas do negócio.

As manhãs são frequentemente dedicadas às cirurgias, a par de algumas consultas. Durante a tarde, sucedem-se outras consultas, o acompanhamento dos animais em recobro e as altas. Pelo meio, há ainda que orientar a atividade da loja de produtos para animais e tratar de assuntos de gestão.

É uma rotina exigente, em que as responsabilidades clínicas se cruzam com a organização do trabalho e o contacto com os tutores.

 

O agradecimento que dá sentido ao trabalho

Quando fala daquilo que mais o realiza, João regressa à ideia de serviço à comunidade. A possibilidade de ajudar um animal e a família que se preocupa com ele dá sentido às exigências da profissão.

O reconhecimento pode chegar através de palavras, de um gesto de carinho ou até de uma caixa de chocolates. Mais do que o valor da oferta, conta o que ela representa: a gratidão de quem sentiu que recebeu ajuda num momento difícil.

“É a parte de sentir que as pessoas nos agradecem por nós termos ajudado”, resume.

Esse reconhecimento tem um peso particular numa profissão que descreve como desgastante. Nem sempre é possível salvar um animal, encontrar uma solução ou corresponder às expectativas de todas as pessoas. Por isso, os resultados positivos e a confiança dos tutores tornam-se uma parte importante da realização profissional.

Uma profissão feita de emoções

A dificuldade de aceitar os limites da medicina está entre os aspetos mais duros do trabalho. Há decisões complicadas e casos em que, apesar dos esforços, não é possível alcançar o desfecho desejado.

“Não conseguimos ajudar todos, infelizmente. A medicina não dá solução para tudo ainda”, reconhece.

O quotidiano é, assim, vivido num “misto de emoções”. A preocupação com um caso grave pode coexistir, no mesmo dia, com a satisfação de uma recuperação ou com o nascimento de animais numa cesariana. Essa alternância exige capacidade de concentração, equilíbrio e disponibilidade para continuar a cuidar de cada paciente.

À exigência emocional somam-se outras dificuldades. Na perspetiva de João Cruz, a profissão continua a ser mal remunerada em Portugal face às responsabilidades e ao desgaste que implica. Acresce a pressão para encontrar soluções quando os recursos disponíveis são limitados.

“As pessoas querem que nós façamos milagres, muitas vezes com poucos recursos”, observa.

 

Cuidar dos animais implica saber lidar com pessoas

A quem pensa seguir Medicina Veterinária, sobretudo na clínica de animais de companhia, João deixa uma mensagem clara: gostar de animais é indispensável, mas não basta.

É necessário ter consciência das exigências da profissão, gostar de trabalhar em equipa e saber relacionar-se com as pessoas. Afinal, cada animal chega acompanhado por alguém que se preocupa com ele, transmite informações sobre o seu estado e assume as decisões e os encargos associados aos cuidados.

“Os animais não vêm sozinhos, vêm sempre com uma pessoa”, lembra.

O contacto com os tutores ocupa, por isso, um lugar central no trabalho. É preciso ouvir, explicar e acompanhar, incluindo nos momentos em que as respostas são difíceis ou as possibilidades de tratamento estão condicionadas.

Para João Cruz, o caminho passa por reunir o gosto pelos animais, a capacidade de trabalhar com pessoas e a vontade de colaborar com outros profissionais. Acima de tudo, defende, quem escolhe esta área deve fazê-lo com um sentido de missão, o mesmo que encontra na possibilidade de ajudar os animais e, através deles, a comunidade.

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