Joana Paredes: “O cancro é uma doença que vamos tornar crónica”

Joana Paredes é líder de um grupo de investigação em cancro no I3F, Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, onde trabalha focada no que diz respeito aos tópicos do cancro da mama e cancro da mama metastático. Também é presidente da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro e deu um contributo significativo na área de investigação biológica de células tumorais ao longo de mais de 80 artigos científicos.

Nasceu e viveu em Coimbra até aos sete anos, mas posteriormente mudou-se com os pais para Anadia. Lá frequentou a Escola da Moita até ao quarto ano e a restante formação académica, até ao 12º, foi feita na Escola Secundária de Anadia.

Ao seguir a tradição da família no campo da medicina, Joana Paredes acabou por seguir biologia e licenciou-se na mesma na Universidade de Coimbra. Atualmente vive no Porto e os pais continuam por Anadia, onde, segundo a mesma, “são bem conhecidos”, já que o pai foi médico no hospital e centro de saúde de Anadia e a mãe chegou a ser diretora da Escola Secundária de Anadia.

 

Jornal de Anadia (JA) – Como surgiu o amor e o bichinho que a levou a ingressar por esta profissão e investigação?

Joana Paredes (JP) – Eu sou filha de um médico de Anadia que toda a gente conhece, Mário Rui Paredes, sou de uma família de médicos, mas sempre tive a noção de que não queria ser médica de forma alguma. Queria trabalhar na área da medicina, sem ser médica. Eu sou muito emotiva e essa parte de contactar com famílias e dar notícias menos boas era que algo que eu não me via a fazer, portanto a solução que arranjei foi estudar biologia, na altura até podia ter sido bioquímica ou outros cursos. Fui para a Universidade de Coimbra, tirei biologia em 1995 com a ideia que ia fazer um trajeto, não para professora de biologia, mas para ser investigadora ou para fazer algo relacionado com a área da saúde. Na faculdade não havia muito esta área de oncologia, mas tínhamos uma professora que já tocava em algumas coisas, chamava-se oncobiologia, que é perceber a biologia das células tumorais. Na altura pedi se podia fazer um estágio com ela – a professora – e ela disse que não tinha estágio nenhum nesta área, que era um ramo muito recente em Portugal, mas eu disse que queria ir para o IPO de Coimbra tentar perceber o que posso fazer. Fui para lá fazer o estágio, eles tinham lá um equipamento que não conseguiam pôr a funcionar, já que não tinham lá ninguém especializado em biologia e eu pu-lo a funcionar. A máquina servia para medir a quantidade de ADN nas células tumorais e aí já tinha começado a pensar no cancro da mama. A verdade é que eu acho que a área da oncologia apareceu porque na altura algumas pessoas, não familiares mas amigos, morreram com cancro. Eu achei que ou era a SIDA ou o cancro, como a SIDA era menos frequente fui para a área da oncologia. Depois de fazer o estágio percebi que era a área que me apaixonava e que era necessário, de facto, trabalho, já que é uma doença muito frequente. Para dar uma ideia, todos os anos três milhões de mulheres são diagnosticadas com cancro da mama e um milhão delas acabam por morrer devido à doença. Estamos a conseguir curar dois terços, mas ainda não estamos a conseguir tratar. Já se curam muitas pessoas, é verdade, mas ainda continuamos com um número muito grande de mulheres que não se curam. Temos de continuar a tentar perceber o que se pode fazer nessa situação.

 

JA – Desde que começou estas investigações já surgiu algum progresso? O que conseguiram entender até ao momento?

JP – O meu trabalho acabou por ser importante para mostrar… vamos lá ver se consigo meter isto de uma forma simples. Não se conhecia muito, as células tumorais quando entram em circulação toda a gente pensava que as células iam sozinhas, portanto entra uma e depois outra e andavam ali dispersas e isoladas. O que eu vim mostrar foi que eu não acreditava nisso porque há uma proteína que eu estudo que é uma molécula de adesão, que cola as células umas às outras. Esta proteína é muito expressa nos tumores da mama e está associada a muito mau prognóstico, ou seja, os doentes que têm esta proteína enriquecida normalmente corre mal. Basicamente o que eu vim demonstrar é que as células precisam de manter essa adesão, é muito mais eficaz para as células tumorais se manterem juntas e entrarem em circulação juntas, pois sobrevivem muito melhor do que isoladas, e esta é uma das nossas grandes descobertas. Todas as nossas descobertas muitas vezes são pequeninas, mas como houve imensos grupos pelo mundo a descobrir coisas semelhantes, começamos a perceber qual é o mecanismo que está por trás da capacidade que as células têm de sobreviver em circulação. Acaba por ser um pouco do meu trabalho que acabou por ser importante para esse conhecimento, que não existia há vinte anos atrás.

JA – Quais são as perspetivas para o futuro? No que estão a trabalhar? O que esperam conseguir alcançar com a vossa pesquisa?

JP – Nunca esperamos curar. Eu acho que quem vem para investigação vem sempre com a ideia de que vai curar o cancro e eu também vinha com essa ideia quando comecei há uns anos atrás. O cancro não é uma doença que vamos curar, é uma doença que vamos tornar crónica, ou seja, a nossa ambição como investigadores é fazer com que uma pessoa que tenha cancro consiga viver com ele sem que isso lhe condicione a vida, é como viver com diabetes, ou viver com outra doença crónica qualquer. O cancro é uma doença que vem com a idade e nós cada vez vivemos mais tempo, portanto cada vez mais a nossa probabilidade de vir a desenvolver um cancro é maior, não é algo que vá desaparecer. Para além disso o cancro está ligado à poluição, maus hábitos como fumar, são coisas que já percebemos que não desaparecem tão facilmente, já que a população nem sempre acolhe as medidas de prevenção, só ficam preocupados quando têm a doença. É uma doença que veio para ficar, não é algo que vá deixar de existir, não é como o Covid-19 nem o VIH que são vírus, que de alguma forma conseguimos eliminar. O que nós queremos como investigadores é tentar perceber a biologia desta doença e o que é que nós podemos fazer de forma a que as células fiquem de alguma forma adormecidas no corpo e que não tenham o impacto devastador que têm, que é matar o doente. A minha perspetiva é sempre perceber o que é que eu, biologicamente, posso descobrir que me ajude a manter as células dormentes ou adormecidas.

 

JA – Isso é um cenário a longo prazo, certo?

JP – É sempre um cenário a longo prazo. As pessoas têm a ideia que estamos muito atrasados na investigação e que tudo demora muito tempo e não é verdade. Nesta janela de vinte anos de trabalho, em que eu estive presente, surgiram imensos fármacos novos na área da oncologia, na área do cancro da mama então é brutal e, neste momento, temos taxas de sobrevivência e de cura na ordem dos 90%, coisa que absolutamente não existia há 20 anos atrás. A evolução parece que é muito longa porque nós cada vez mais temos cancro e cada vez mais ouvimos histórias muito más, mas eu acho que quem trabalha na área não tem essa perceção. A imunoterapia que apareceu agora e mudou completamente o prognóstico de pessoas com cancro do pulmão, com melanoma e cancro da bexiga. Eu nunca vejo o futuro como algo que cada vez vai ser pior, eu acho que cada vez vamos ter mais armas e vamos conhecer mais, muito também por causa da tecnologia. Nós cada vez temos melhor equipamento que nos permite entender melhor coisas que há anos atrás não conseguíamos saber a nível celular e biológico.

 

JA – Já foram publicados mais de 80 artigos científicos da sua autoria. Quais foram os que lhe deram mais gosto fazer?

JP – O que mais gostei de fazer foi aquele que fiz no meu doutoramento, publiquei já há alguns anos, em 2004, e foi o artigo que mudou o meu paradigma. Quando entrei aqui acreditava-se que era necessário as células perderem adesão para conseguirem invadir e metastizar, eu com este artigo vim mostrar que não, que realmente podem continuar com adesão e que até conseguem fazê-lo de uma forma muito mais efetiva. Por isso esse artigo fez mudar um bocadinho o chip a mim e as várias pessoas que trabalham no mundo, foi muito importante. O segundo me deu mais gosto fazer foi o primeiro artigo como líder de investigação em 2010, também porque veio consolidar esta descoberta já feita em 2004.

 

Tiago Alexandre

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