Opinião: A Animalidade da Humanidade

Os seres humanos são entidades absolutamente únicas no mundo que conhecemos. Sendo seres dotados de características biologicamente notáveis, é inegável que a espécie humana se reveste de uma enorme complexidade que merece ser estudada e analisada com rigor e cautela, para que, assim, possamos evitar que cair na tentação de fazer suposições erróneas que nos levam a conclusões falsas e facilitam a propagação de mentiras sobre a humanidade. Portanto, repetimos a premissa da qual partimos, o ser humano é um ser único no mundo, e reforçamos esta afirmação com uma nova premissa que ajuda ao esclarecimento deste breve raciocínio que propomos: o ser humano está dotado de razão (o que o converte num animal racional, como diz Aristóteles).

Ora, é precisamente este conjunto de faculdades intelectuais de que o ser humano dispõe e que lhe oferecem a inteligência, o discernimento, a lucidez e a consciência que constituem a unicidade humana e que os ajuda a distinguir-se dos demais animais. Porém, não nos podemos esquecer que o Homem é, e será sempre, um animal e que, consequentemente, apesar das nuances psicológicas e sociológicas que a razão permite estabelecer, o Homem está também sujeito às leis naturais da biologia que não consegue ultrapassar, apesar dos muitos esforços sociais, políticos e filosóficos, entre outros, que se têm encetado. É, assim, infrutífero tentar contornar as condicionantes biológicas que são inerentes a todos os animais, procurando substituí-las por constructos humanos que acabam por esbarrar contra a biologia inultrapassável da vida, demonstrando que a razão que acreditamos possuir, por vezes, não se encontra em quantidade e qualidade suficiente.

Definitivamente, existem muitos discursos e propaganda que advogam, ou dizem advogar, teorias e ideias que, aparentemente, podem contribuir para a evolução da humanidade e na definição do ser humano. Mas não nos podemos esquecer que a própria evolução é um fenómeno biológico e que toda e qualquer teoria, independentemente da sua intenção, que esbarre contra a biologia não pode ser considerada uma boa teoria porque é facilmente falsificável. A insistência nessas teorias e ideias manifestamente erradas e, mais grave ainda, a demonização de todos aqueles que a elas se opõem, apenas demonstra que a racionalidade do ser humano é limitada pelo espírito instintivo que nos leva a defender os nossos interesses com uma agressividade muitas vezes desnecessária de um modo similar ao que os animais defendem o seu território. E isto acontece porque, contrariando todas as teorias que dizem o contrário, a racionalidade do ser humano não se pode sobrepor à sua animalidade; efetivamente, a racionalidade é uma forma de moderar e controlar esses instintos em nome da vida em comunidade que os seres humanos necessitam para sobreviver (somos também animais sociais). Negar a nossa animalidade é, portanto, também a negação da nossa humanidade, na medida em que o Homem só é um animal racional nos intervalos de ser animal. Somente temos pena que, em muitos casos, esses intervalos sejam demasiado curtos.

 

Carlos César Vinhal

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