Perguntei ao ChatGPT quais as vantagens da ferrovia em relação ao trânsito rodoviário. A resposta, rápida, veio ao encontro do que eu já sabia há bastantes anos e tem vindo a ser tornado público pelo Partido Ecologista Os Verdes, nomeadamente, quando, em 2018, lançou uma ação nacional em defesa do transporte ferroviário intitulada “Comboios a Rolar, Portugal a Avançar”.
Maior capacidade de carga, menor custo operacional e mais vida útil.
Menor consumo de energia, menor pegada ecológica. Menor dependência dos combustíveis fósseis e menor poluição sonora.
Maior segurança e menor congestionamento e por consequente, menor tempo de percurso.
A defesa de um novo paradigma de mobilidade de passageiros e de mercadorias centrado na ferrovia é, desde há muito tempo, assumida por Os Verdes como uma resposta imprescindível para o desenvolvimento do país e para o combate às alterações climáticas, nomeadamente, se tivermos em conta que os transportes representam 25% do total das emissões carbónicas e a ferrovia é claramente a forma de transporte público convencional com menor pegada carbónica.
A ferrovia é assumida pela União Europeia como um transporte fundamental e de futuro. É a opção crescente em toda a Europa.
Há dias, em Anadia, falou-se da Linha de Alta Velocidade.
Os Anadienses, que contestam a passagem da LAV pelo concelho, falaram muito mas disseram pouco.
Que a bitola foi mal escolhida, que a rede de ferrovia é insuficiente. Que há falta de material circulante, particularmente durante a noite. Que os ferroviários estão frequentemente em greve. Que o novo traçado é um atentado à paisagem bairradina (nomeadamente a que se vê da Quinta do Encontro) e a uma das mais importantes atividades económicas da região- a vitivinicultura.
Entre “discursos” mais ou menos afastados do tema em discussão, mas mais engajados politicamente, sugeriram o “empurrar” da linha para as zonas de mata, para junto da A1 ou para o litoral, afastando-a da cidade de Coimbra.


Depois de concluída a obra com a ajuda de fundos comunitários, terá o país capacidade para aguentar o necessário investimento em manutenção? O que se tem passado com a atual ferrovia durante largos anos deixa algumas dúvidas sobre essa capacidade.
O projeto de aumentar as ligações ferroviárias que ligarão a LAV a outros pontos do país (nomeadamente ao interior e à vizinha Espanha) é para continuar ou, sendo esta uma “obra do regime”, como alguns dizem, será para “enfiar na gaveta” com uma eventual mudança de governo? Com a febre das autoestradas iniciada nos anos 90 do século passado é difícil saber qual, neste momento, é a opinião de alguns partidos políticos, com aspirações a governo, sobre a ferrovia versus autoestradas.
Será a LAV entre Lisboa (Carregado) e o Porto uma prioridade face ao estado calamitoso em que se encontram as nossas (velhas, desadequadas ou inexistentes) ferrovias?
Sou incontestavelmente a favor da ferrovia.
Mas também sei que obras de fachada e “porque há apoios comunitários” são muitas vezes utilizadas para potenciar aplausos e continuidade política sem olhar às verdadeiras necessidades do povo real.
Tenho medo que esta obra, tal como tantas outras promessas eleitorais/eleitoralistas acabe por ficar no papel ou (pior um pouco) a meio. Ou que sirva, como em muitos outros casos, para encher os bolsos de uma minoria que, no governo, faz obra, para depois a gerir quando sai da vida política.
Sei que os interesses individuais são frequentemente ultrapassados pelo “interesse nacional”. E sei que, em Anadia, não é com petições ““Nós dizemos não à linha de alta velocidade entre Porto e Lisboa” e o tipo de intervenções patentes naquela sessão de esclarecimento que se consegue fazer valer a vontade “maioritária” (dizem) dos anadienses.
É que, perante a realidade de hoje, Anadia não será certamente “aquela pequena aldeia povoada por irredutíveis gauleses que resiste ainda e sempre ao invasor.” E por muito bom que seja o vinho da Bairrada não é a poção mágica que nos permitirá enfrentar os “romanos” que, de Lisboa, navegam (e governam) impulsionados pelos ventos que sopram da Europa.
E finalmente uma pergunta. Será que o apelo feito no início da sessão para a assinatura da “irredutível “petição se manteve depois das explicações dadas e das críticas e problemas apresentados e respondidos (ou não)?
Fátima Flores, militante do PEV, eleita na Assembleia de Freguesia da União das Freguesias de Arcos e Mogofores

