Não é novidade que o mundo contemporâneo é um mundo de transformações constantes e aceleradas, ainda que nem sempre notadas. E essas transformações que se operam na raiz vital do próprio mundo implicam outras mudanças muito mais rápidas e muito mais visíveis por ocorrerem, não na raiz oculta sob a terra, mas no caule e nas folhas que dela emergem. Diria Camões, e com razão, que aquando da mudança dos tempos há também mudança de vontades que se traduzem em mudanças nos tecidos económico e social, jurídico e legal, político e moral.
Ora, ao longo dos últimos meses, em vários artigos publicados em diversas plataformas, temos alertado para o perigo inato associado a estas mudanças radicais que promovem a rutura plena com os valores tradicionais do passado (e não falamos dos últimos cinquenta ou cem anos, mas, pelo menos, dos últimos 2600 anos) sem terem a capacidade de apresentar valores alternativos que satisfaçam as necessidades humanas de proteção, segurança, previsibilidade e esperança. As revoluções não funcionam se lhes seguir um vazio anárquico onde cada vontade se procura impor sobre outra vontade, estabelecendo um caos social e uma completa desconsideração pela dignidade humana. Os valores tradicionais são tradicionais por algum motivo. Mais ainda: os valores tradicionais pelos quais nos regemos, sejam eles oriundos da cultura grega, de alguns povos asiáticos ou africanos ou da tradição judaico-cristã, têm subsistido ao longo de diversos séculos não só porque são tremendamente eficazes na satisfação das necessidades humanas apontadas, como, sobretudo, dotam a existência de um propósito além da mera imposição de vontades que descamba em anarquia, caos e guerra.


Carlos Vinhal Silva

