Na longa travessia da vida, cada ser humano carrega consigo o peso das suas escolhas: erros cometidos, injustiças praticadas, palavras ditas fora de tempo ou atos negligenciados desenham uma sombra que nos acompanha. Contudo, a natureza humana, imperfeita e resiliente, é também dotada de uma capacidade singular: a redenção. Não há vida imaculada, mas há a possibilidade de um renascimento moral, um caminho em direção à bondade e à decência que pode, senão apagar, pelo menos ressignificar as faltas do passado. Os antigos filósofos viam na virtude o mais elevado ideal humano. Aristóteles ensinava que a ética não é uma teoria abstrata, mas uma prática diária, uma repetição intencional de bons atos que molda o caráter e que, se assim é, então a bondade não é uma condição inata, mas uma escolha que se renova a cada instante, pelo que cada gesto de altruísmo, cada palavra de conforto ou cada decisão de agir com justiça são pedras que pavimentam o caminho para a superação das nossas falhas.


Viver com bondade e decência não é um caminho fácil, uma vez que exige coragem para confrontar as nossas falhas, humildade para reconhecê-las e determinação para mudar e exige, acima de tudo, uma compreensão profunda da condição humana: a consciência de que todos erramos, mas também de que todos podemos aspirar ao bem. Assim, a redenção não é uma questão de meritocracia moral, mas de autenticidade, não é necessário alcançar a perfeição, mas é essencial trilhar um caminho que demonstre o esforço genuíno para ser melhor, para fazer melhor, para viver melhor. Em última análise, a bondade e a decência têm um efeito transformador não só sobre quem as pratica, mas também sobre o mundo à sua volta, porque tal como um rio que, ao correr, purifica as margens por onde passa, uma vida vivida com virtude é um bálsamo para as feridas da sociedade. E, quem sabe, ao reconciliar-nos com o nosso próprio passado, podemos também ajudar os outros a encontrarem o seu caminho de redenção.
por Carlos Vinhal Silva

